Amigos da Comunidade: quem mantêm viva a cultura, a leitura e a contação de histórias em Mandaguari

Conheça as trajetórias de Josepha Perez e Aldenora, que dedicam seu tempo para incentivar a leitura, preservar tradições e transformar vidas por meio dos livros e das histórias

Em uma época marcada pela velocidade da informação e pelo uso constante das telas, ainda existem pessoas que dedicam tempo, conhecimento e esforço para fortalecer os laços comunitários por meio da cultura. Em Mandaguari, iniciativas desenvolvidas de forma voluntária ajudam a manter viva a leitura, as tradições populares e o convívio entre gerações.

Nesta edição da série Amigos da Comunidade, duas histórias mostram como pequenas ações podem gerar grandes impactos. De um lado, uma biblioteca comunitária criada para preservar a memória de uma irmã. De outro, uma educadora que encontrou na contação de histórias uma forma de acolher, ensinar e transformar.

Josepha Perez


Aos 89 anos, Josepha Perez segue abrindo as portas de sua casa para receber leitores, estudantes e visitantes. Em seu quintal funciona uma biblioteca comunitária que se tornou referência para muitas famílias de Mandaguari.
A história começou após a perda da irmã, Maria Aparecida Zanata Peres, conhecida como Cida Peres, falecida em 2008. Professora alfabetizadora, contadora de histórias e apaixonada pela literatura, Cida deixou um acervo de aproximadamente 1.800 livros.

Após o falecimento, amigos começaram a perguntar o que seria feito com os exemplares. Naquele momento, Josepha ainda enfrentava o luto e não pensava em uma solução. Tempos depois, uma lembrança mudou o rumo da história. “Depois eu lembrei de um Globo Repórter onde o mecânico tinha uma biblioteca na oficina. Aí eu resolvi também pegar os livros e abrir aqui”, recorda.

Trazer os livros de Campinas para Mandaguari não foi simples. Segundo ela, transportadoras não costumavam aceitar esse tipo de carga. Com a ajuda de um empresário da cidade, que realizou o transporte como doação, o acervo chegou em três viagens.

Em dezembro de 2009, a biblioteca foi oficialmente inaugurada. No início, a proposta causou estranheza em algumas pessoas. “No começo foi um pouco difícil o pessoal entender uma biblioteca em fundo de quintal. Mas devagar eu fui adquirindo os leitores. Aos poucos eles foram vindo”, conta.

Passados mais de 15 anos, o acervo cresceu consideravelmente. Dos 1.800 livros iniciais, a biblioteca passou a reunir cerca de 7 mil exemplares, adquiridos por meio de compras, doações e trocas.

Toda a estrutura é mantida de forma gratuita. Josepha explica que nunca recebeu recursos públicos para o projeto e que conta principalmente com o apoio da família e de amigos.

Além dos livros, o espaço se transformou em um centro de atividades culturais. Ao longo do ano, são realizadas festas temáticas, encontros literários e ações voltadas às crianças.

Na Festa Junina, ela promove brincadeiras tradicionais como corrida de saco, pescaria e estoura-bexiga. Na Páscoa, trabalha tradições ligadas à pintura de ovos. No Carnaval, apresenta às novas gerações elementos que marcaram a infância de muitos brasileiros. “As crianças de hoje não conhecem confete, eles não conhecem a serpentina. E aí eu tento passar para eles essa cultura”, afirma.

Também há espaço para valorizar elementos do folclore nacional. Entre as atividades promovidas por Josepha estão ações relacionadas ao Saci e a outras manifestações culturais brasileiras.

Apesar dos desafios enfrentados ao longo dos anos, ela afirma que a biblioteca continua sendo uma motivação diária. “Isso para mim é muito importante, porque eu não me sinto sozinha. Me perguntam se eu tenho solidão e eu respondo que não tenho, porque a criançada está lá. Quando eles chegam, a gente se diverte, se distrai, conversa. Então para mim isso aqui é vida, essa biblioteca é vida.”

Ao explicar o motivo que a levou a criar o espaço, Josepha resume a essência do projeto. “Eu abri essa biblioteca para preservar a memória da minha irmã, ela que foi alfabetizadora, contadora de histórias, na área da literatura. Ela deixou um legado muito bom. E o outro objetivo foi o incentivo à leitura também.”

Maria Aldenora de Barros Freitas


Se os livros ocupam lugar especial na história de Josepha, as histórias contadas em voz alta são a missão abraçada por Maria Aldenora de Barros Freitas ao longo de sua trajetória.

Pedagoga com licenciatura plena e especialista em diversas áreas da educação, incluindo psicopedagogia hospitalar, clínica, educacional e empresarial, educação inclusiva, alfabetização, letramento e psicomotricidade, ela dedica parte de seu tempo a projetos voluntários voltados ao incentivo à leitura e ao desenvolvimento humano.

Durante anos, realizou no Parque da Pedreira o projeto Te Conto no Parque, promovendo encontros mensais de contação de histórias para crianças e famílias. A iniciativa transformou um espaço público da cidade em ambiente de imaginação, aprendizado e convivência.

A atuação voluntária também chegou a outros locais. Sempre que necessário, Aldenora participa de atividades na biblioteca mantida por Josepha, levando histórias para alunos e visitantes. Em abril, mês em que são celebrados o Dia Nacional do Livro Infantil e a obra de Monteiro Lobato, ela esteve no espaço realizando apresentações para estudantes.

Mas os planos da educadora vão além das atividades que já realiza. Um dos projetos que pretende desenvolver é a Contoterapia, iniciativa criada para utilizar os contos como ferramenta de acolhimento e bem-estar emocional. “Meu sonho é realizar nos salões comunitários dos bairros, levando a cura através dos contos, pois contar histórias é um ato de utilidade pública”, afirma.

A proposta prevê atividades em instituições de longa permanência para idosos, bairros e, futuramente, hospitais. “Sonho também em contar em hospitais, na ala infantil, pois fiz psicopedagogia hospitalar”, destaca.

Segundo Aldenora, a contação de histórias tem potencial para estimular a imaginação, fortalecer vínculos e proporcionar momentos de escuta e reflexão. O primeiro passo para colocar o projeto em prática deverá acontecer junto aos idosos. “Tentarei começar pelo Asilo, se Deus quiser”, conta.

Enquanto aguarda o momento adequado para ampliar as atividades, ela segue colaborando de forma voluntária em ações culturais e educativas do município. “Com a graça de Deus, entrarei em contato com cada presidente de bairro para colocar em prática esse meu projeto de Contoterapia, a cura por meio dos contos.”

Para Aldenora, contar histórias vai além do entretenimento. É uma forma de compartilhar conhecimento, acolher pessoas e fortalecer os laços da comunidade por meio da literatura e da imaginação.

Aprendizado
As histórias de Josepha e Aldenora têm origens diferentes, mas compartilham o mesmo propósito: contribuir para a comunidade utilizando aquilo que cada uma tem de mais valioso para oferecer.

Enquanto uma transformou a memória da irmã em um espaço de acesso gratuito à leitura, a outra utiliza a palavra e a imaginação para aproximar pessoas e promover conhecimento. Em comum, ambas demonstram que a cultura também é uma forma de cuidado.

Em tempos em que a correria do cotidiano muitas vezes reduz os momentos de convivência, exemplos como esses mostram que cidadania também se constrói por meio dos livros, das histórias e da disposição de dedicar tempo ao próximo.