“Conhecimento salva vidas”

Jornal Agora conversou com Valdir Botelho, especialista em resgate e primeiros socorros

O engasgo de uma criança pode durar apenas alguns segundos, mas esse curto espaço de tempo é suficiente para transformar uma situação comum em uma tragédia. A rapidez no atendimento e o conhecimento das manobras corretas podem fazer a diferença entre a vida e a morte. O alerta é do especialista em resgate e primeiros socorros Valdir Jorge Botelho, de 49 anos, que atua há quase uma década na área de treinamentos voltados à segurança, emergências e salvamento.

Natural de Mandaguari, Valdir passou anos em Santa Catarina, onde integrou equipes especializadas em resgates de alta complexidade, incluindo operações em áreas de difícil acesso e atendimentos em situações de desastres naturais. Atualmente, de volta à cidade, ele trabalha com treinamentos de normas regulamentadoras (NRs), combate a incêndio, trabalho em altura, espaço confinado e atendimento pré-hospitalar.

Durante entrevista ao Jornal Agora, o especialista chamou atenção para um tema que tem preocupado famílias e educadores: os casos de engasgo e afogamento infantil.

Segundo ele, muitas mortes poderiam ser evitadas com orientações básicas de primeiros socorros. “Conhecimento salva vidas. Muitas vezes a pessoa entra em pânico e não sabe o que fazer. São manobras simples que, quando aplicadas corretamente, podem evitar uma tragédia”, afirmou.

Lei Lucas reforçou treinamento nas escolas
Valdir destaca que a preocupação com o preparo de professores e cuidadores ganhou força após a criação da Lei Lucas, sancionada em 2018. A legislação determina que profissionais de escolas e creches recebam capacitação em primeiros socorros.

A lei foi criada após a morte do menino Lucas Begalli, de 10 anos, que se engasgou durante um passeio escolar em Campinas (SP). Desde então, treinamentos passaram a ser realizados em diversas instituições de ensino. Em Mandaguari, Valdir afirma já ter ministrado capacitações em escolas, creches, na APAE e também para profissionais ligados ao transporte escolar.

“Os professores e atendentes lidam diariamente com vidas. Eles recebem crianças muito pequenas e precisam estar preparados para agir quando acontece uma emergência. É uma responsabilidade enorme”, ressaltou.

Situações acontecem mais do que se imagina
O especialista relata que já precisou realizar manobras de desengasgo em bebês, crianças e adultos ao longo da carreira. Um dos casos mais marcantes aconteceu durante a madrugada, quando uma mãe procurou ajuda desesperada após o filho, apresentar sinais de sufocamento causados por secreção respiratória.

“A criança já estava ficando arroxeada. Fizemos a manobra adequada e ela voltou a respirar normalmente. Hoje está saudável e correndo para todo lado. Se não houvesse atendimento naquele momento, o desfecho poderia ter sido outro”, contou.

O que fazer em caso de engasgo
De acordo com Valdir, a primeira orientação é tentar manter a calma, mesmo diante do desespero natural provocado pela situação.

Ele alerta que algumas atitudes comuns podem agravar o problema, como sacudir a criança, colocá-la de cabeça para baixo sem técnica adequada ou introduzir os dedos na boca para tentar retirar o objeto. “Se o objeto estiver apenas parcialmente obstruindo a via aérea, você pode empurrá-lo ainda mais para dentro. O ideal é acionar imediatamente o socorro e seguir as orientações dos profissionais”, explicou.

Em situações de emergência, os pais ou responsáveis devem ligar para o SAMU pelo telefone 192 ou para o Corpo de Bombeiros pelo 193. Durante a ligação, as equipes orientam os procedimentos que podem ser realizados até a chegada do atendimento.

Valdir também destaca a diferença entre engasgo e afogamento. Enquanto o engasgo ocorre pela obstrução das vias respiratórias por um corpo estranho sólido, o afogamento está relacionado à entrada de líquidos nas vias aéreas. Apesar das particularidades de cada caso, ambos exigem atendimento rápido.

Capacitação vai além das grandes empresas
Além dos treinamentos voltados para escolas e instituições de ensino, Valdir também atua junto a empresas de diversos portes, capacitando funcionários para agir em situações de emergência.

Os cursos abrangem desde combate a incêndio até atendimento pré-hospitalar, incluindo procedimentos para casos de parada cardiorrespiratória, acidentes de trabalho e primeiros socorros.

Segundo ele, a preparação adequada dos colaboradores pode ser fundamental até a chegada das equipes especializadas. “Os primeiros minutos são decisivos. Em uma parada cardiorrespiratória, por exemplo, cada minuto sem atendimento reduz significativamente as chances de sobrevivência da vítima. Ter alguém treinado por perto pode fazer toda a diferença”, afirmou.

Para o especialista, investir em conhecimento é uma das formas mais eficazes de proteger vidas.
“Não precisamos esperar uma emergência acontecer para aprender. Quando a situação chega, não há tempo para procurar informação. O treinamento precisa vir antes”, concluiu.