Alta costura: pioneira de Mandaguari tem história ligada à formação da cidade

Conheça a história de Carolina, neta de imigrante do navio Kasato Maru e uma das primeiras a atuar na alta costura em Mandaguari

A história da imigração japonesa no Brasil é marcada por coragem, trabalho e adaptação. Desde a chegada dos primeiros imigrantes, no início do século XX, milhares de famílias atravessaram o oceano em busca de novas oportunidades. Entre essas trajetórias está a da família de Mitsuko Yagui Takeshiro, conhecida como Carolina, moradora de Mandaguari que carrega um legado que atravessa gerações.

Neta de Isekiti Yagui, um dos passageiros do navio Kasato Maru, marco da imigração japonesa no país, Carolina cresceu cercada pelas histórias da chegada da família ao Brasil. Filha de Tadashi Yagui e Haruko Yagui, ela nasceu na cidade de Lins, no interior de São Paulo, onde seus pais moravam.

A mudança para o Paraná aconteceu ainda na juventude. Aos 15 anos, Carolina chegou a Mandaguari, atraída, assim como tantas outras famílias, pela fama de que o estado oferecia terras férteis e oportunidades de crescimento. No entanto, a realidade encontrada era bastante diferente.

Na época, Mandaguari ainda dava seus primeiros passos em termos de urbanização. Sem infraestrutura consolidada, o cotidiano exigia esforço e adaptação constante. Como filha mais velha de uma família numerosa, Carolina assumiu desde cedo responsabilidades importantes dentro de casa, auxiliando os pais na criação dos irmãos mais novos. “Eu cuidava de todos. Dava banho, ajudava dentro de casa. Era difícil, mas era o que precisava ser feito”, conta.

Já na vida adulta, após o casamento, enfrentou um período de dificuldades financeiras que exigiu uma reinvenção. Foi nesse contexto que a costura surgiu como alternativa de sustento para a família.

O que começou por necessidade se transformou em profissão e reconhecimento. Carolina buscou aperfeiçoamento, realizou cursos e construiu uma trajetória sólida na área da alta costura, tornando-se referência em Mandaguari e também em cidades da região. “Eu comecei porque precisava, mas depois fui gostando. Costura exige dedicação, é um trabalho detalhado”, afirma.

Um dos capítulos mais marcantes de sua história foi o contato com o estilista e apresentador Clodovil Hernandes, com quem conviveu ainda na juventude. Segundo ela, foi nesse período que desenvolveu habilidades no desenho de roupas, fundamentais para o trabalho na alta costura. “Ele não costurava, mas desenhava muito bem. Aprendi a desenhar com ele”, relembra.

Ao longo dos anos, Carolina não apenas atuou como costureira, mas também se destacou no universo da alta costura, além de dar aulas. Dezenas de pessoas passaram por seus ensinamentos, em uma época em que o ofício era essencial. “Muita gente aprendeu comigo. Naquele tempo, saber costurar era obrigação”, destaca.

Além da atuação profissional, a família Yagui teve participação ativa na comunidade japonesa de Mandaguari. Integrantes da associação japonesa local, contribuíram diretamente para a construção e fortalecimento do espaço, que se tornou referência cultural no município.

O local foi erguido com o esforço coletivo da comunidade, em sistema de mutirão, evidenciando o espírito de colaboração entre os imigrantes e seus descendentes. A participação da família reforça a importância da preservação das tradições e da identidade cultural japonesa na cidade.

Com 93 anos, Carolina acompanhou praticamente toda a transformação de Mandaguari. Da época em que a cidade era marcada pela poeira e pela ausência de infraestrutura, até o crescimento urbano e a modernização.

Mesmo diante das dificuldades enfrentadas ao longo da vida, ela mantém uma visão positiva e resiliente. “O que passou, passou. A gente tem que seguir em frente e sempre procurar o lado bom”, afirma.

A história de Mitsuko Yagui Takeshiro é, ao mesmo tempo, pessoal e coletiva. Representa não apenas a trajetória de uma família, mas também o legado de uma geração de imigrantes e descendentes que ajudaram a construir Mandaguari, deixando marcas profundas na cultura, na economia e na identidade da cidade.