Waldomiro Bravo: um dos mais antigos cafeicultores de Mandaguari

A história de Waldomiro Bravo, prestes a completar a mesma idade que Mandaguari, 89 anos, é um retrato fiel de uma geração que ajudou a construir e formar a cidade com trabalho árduo e perseverança. Nascido em Barretos, no interior de São Paulo, ele chegou ainda criança a Mandaguari, com cerca de quatro anos de idade, acompanhando a família que buscava novas oportunidades no então promissor cenário agrícola paranaense.

Filho de trabalhadores rurais, Waldomiro cresceu em meio à derrubada da mata e à formação das primeiras lavouras de café, cultura que se tornaria não apenas seu sustento, mas sua maior paixão ao longo da vida. Desde os cinco anos de idade já ajudava nas atividades do campo, realidade comum em uma época em que o trabalho infantil era parte da dinâmica familiar nas propriedades rurais.

Em outro estado do país, no distrito de Santo Eduardo em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, nascia Ereny Pires Viana, que ainda jovem também migrou para o Paraná. O destino tratou de aproximar os dois. Vizinhos de sítio, Waldomiro e Ereny se conheceram ainda adolescentes. O namoro seguiu os moldes tradicionais da época: encontros supervisionados, conversas à distância e visitas restritas aos finais de semana. Após cerca de cinco anos de relacionamento, oficializaram a união em 1960. “Era um aqui e outro lá, não podia nem pegar na mão. Nossa festa de casamento foi muito boa, a noite inteira com churrasco e baile até o amanhecer. Inclusive a costureira que fez o meu vestido de casamento está viva até hoje, a Leonilda!”, relembrou com alegria dos velhos tempos.

A vida a dois começou de forma simples, como a de tantas famílias da época. O casal passou por diversas propriedades rurais, sempre trabalhando, plantando, colhendo e ajudando a desenvolver lavouras de café em diferentes regiões do estado, como Paiçandu, Assis Chateaubriand e Mandaguari. Foram anos de mudanças constantes, marcados pela busca por melhores condições e pela instabilidade típica da vida no campo.

Ereny lembra que trabalhou durante toda a gestação dos filhos, muitas vezes até o último mês, conciliando o trabalho pesado na lavoura com os cuidados da casa. Os partos, em sua maioria, aconteceram em casa, com auxílio de parteiras, reflexo de um tempo em que o acesso à saúde era limitado nas áreas rurais.

O casal enfrentou também momentos difíceis, como a Geada Negra que atingiu duramente as lavouras de café e obrigaram muitas famílias a recomeçar em 1975. Ainda assim, nunca abandonaram o café. “A vida foi essa, sempre trabalhando na roça”, resumiu ela ao recordar décadas de trabalho contínuo.

Com o passar dos anos, Waldomiro conseguiu adquirir sua própria chácara, localizada na região da PR-444, ao lado da Cafeeira Bela Esperança, com cerca de dois alqueires de terra. A propriedade, que antes possuía área maior, acabou sendo parcialmente reduzida com a abertura da rodovia, mas seguiu como base do sustento da família.

Mesmo já vivendo na cidade, no Jardim Esplanada, ele nunca deixou de cuidar da lavoura de café. Durante anos, ele e a esposa se deslocavam diariamente até a chácara de bicicleta. O ritmo de trabalho permaneceu intenso. A rotina incluía carpir, rastelar, plantar as mudas, aplicar defensivos, colher manualmente e cuidar de cada detalhe da plantação.

Ao longo do tempo, os filhos passaram a ajudar no trabalho. Entre eles, Wilson Bravo, o filho homem mais velho, teve papel fundamental no cuidado com a propriedade e com os pais, conciliando trabalho urbano com as atividades no campo. Foram décadas de dedicação conjunta, mantendo viva a produção de café mesmo diante das dificuldades. “Meu pai trabalha desde os cinco anos de idade, sempre mexendo com o café. Ele e minha mãe iam de bicicleta todo dia trabalhar na lavoura, a diversão dele sempre foi trabalhar no sítio e é apaixonado por café, só parou de trabalhar porque ficou doente, porque vontade e força para trabalhar ele sempre teve”, relatou o filho Wilson Bravo.

A lavoura, inicialmente formada por pés antigos e menos produtivos, foi sendo renovada ao longo dos anos. Hoje a propriedade conta com milhares de pés de café, incluindo variedades mais modernas, resultado do esforço contínuo de adaptação às novas técnicas e exigências do mercado. Todo o café produzido pela família Bravo é vendido para o Café Bela Esperança, que termina a produção, faz a torra, embala e vende nos supermercados de Mandaguari e de todo o Paraná. “Atualmente nós temos e plantamos em nosso sítio cerca de 9 mil mudas de café por ano e todo o trabalho sempre foi feito manualmente, sem a ajuda de maquinários, tudo na mão e no enxadão. Depois que colhemos vendemos todo o café para o nosso vizinho, o Café Bela Esperança”, contou.

Apesar da rotina pesada, Waldomiro também encontrava tempo para o lazer. Ainda jovem, ele foi sanfoneiro em diversos bailes de Mandaguari, animando festas em sítios. Conhecido pela habilidade com a sanfona, ele aprendeu a tocar de forma autodidata, apenas observando outros músicos. Nos bailes, era comum que a música fosse exclusivamente instrumental, e Waldomiro contribuía para manter viva essa tradição cultural. “Ele tocava sanfona nos bailes desde a época de solteiro. Aprendeu a tocar só de ouvir, nunca fez aula. Nos bailes às vezes dava confusão, mas era tudo parte da diversão daquela época”, conta o filho Paulo Bravo.

Waldomiro também jogava futebol, ele participou do time conhecido como “Cariocas”, ao lado de seus cunhados. Os jogos aconteciam principalmente no antigo campo do MEC, Baixadão da Estrada Keller e o Flamenguinho da Vila Vitória.

Outro aspecto de sua trajetória foi o espírito comunitário. Segundo relatos da família, ele sempre esteve disposto a ajudar vizinhos, especialmente em momentos de necessidade. Com o Jipe que adquiriu depois de anos de trabalho, chegou a transportar moradores da zona rural para a cidade em situações de emergência, além de participar ativamente da vida social e política local, inclusive auxiliando no transporte de eleitores em períodos eleitorais. “O pai e a mãe sempre foram muito bons, nunca forçaram a gente a trabalhar, ele sempre nos tratou muito bem e não tenho o que reclamar. Ele ajudava todo mundo, levava as pessoas para a cidade quando precisava e nunca cobrou nada”, contou a filha mais velha, Vera Lúcia Bravo Fermino.

Para os filhos, Waldomiro é mais do que um trabalhador incansável, é uma referência de caráter e dedicação. O filho mais novo, Odair Bravo, resume esse sentimento ao definir o pai como “um exemplo de vida construída com honra, trabalho e amor incondicional à família”. “Ele sempre transformou os desafios em lições de vida, mais que pai, é um sábio guia e nossa fonte de inspiração diária. Ele é nosso porto seguro e o meu maior exemplo de vida, sempre será o nosso herói”, finalizou ele.

Aos 87 anos, após trabalhar por cerca de 82 anos no café, Waldomiro foi obrigado a interromper as atividades no campo devido a problemas de saúde. Até então, mantinha uma rotina ativa na lavoura, demonstrando uma disposição rara e admirável na sua idade, não descansando nenhum dia. Sua ligação com o café, construída ao longo de mais de oito décadas, tornou-se parte essencial de sua identidade.

Hoje, sua história permanece viva não apenas na memória da família, mas também na paisagem rural que ajudou a transformar. Mais do que um cafeicultor, Waldomiro Bravo representa uma geração de pioneiros que desbravou terras, enfrentou adversidades e contribuiu com o seu trabalho para a formação e desenvolvimento de Mandaguari.

Seu legado ultrapassa as fronteiras da sua propriedade rural e se insere como história viva da cidade, como símbolo de trabalho, resiliência e amor à terra.