Psicólogo deixa carreira consolidada e se forma em medicina no Paraguai
Rogério De Melo Thaddeu conclui seis anos de estudos após decidir, aos 46, retomar um antigo sonho de infância e mudar os rumos da carreira profissional.
Aos 53 anos, Rogério De Melo Thaddeu concluiu uma etapa que começou com uma decisão tomada em apenas três dias. Formado em psicologia e com uma carreira consolidada, incluindo clínica, aulas e palestras, ele decidiu deixar parte dessa trajetória para realizar um antigo sonho, cursar medicina.
A decisão levou Rogério ao Paraguai, onde passou seis anos estudando. O período começou em 2020, em plena pandemia, e exigiu uma profunda reorganização da vida profissional e familiar.
“A medicina sempre foi um sonho de infância”, afirma. Mesmo depois de escolher a psicologia como profissão, a vontade de estudar medicina permaneceu. “Tive a oportunidade de fazer psicologia, mas sempre ficava com aquela pulguinha atrás da orelha, um dia eu realizo.”
A oportunidade surgiu em um momento de mudanças. Com a pandemia, as viagens que fazia pelo Brasil para ministrar aulas e palestras foram reduzidas, afetando também sua renda. Foi nesse cenário que decidiu colocar o antigo projeto em prática.
“A oportunidade surgiu e eu decidi em três dias”, conta. A decisão foi compartilhada com a família, que apoiou a mudança. Poucos dias depois, Rogério já estava no Paraguai para começar uma nova vida.
“Juntei a família, a esposa, os filhos e eles me apoiaram nisso. Como era um sonho antigo, a esposa aguentou a barra e toda a família”, relata.
Conciliar trabalho e estudos
A mudança não significou o abandono da psicologia. Durante os seis anos de graduação, Rogério continuou realizando atendimentos online e dando aulas de pós-graduação, atividades que ajudaram a manter a renda enquanto cursava medicina. “Foi uma readaptação. Eu continuei trabalhando. Continuo trabalhando como psicólogo e dava aula”, explica.
A experiência também exigiu resistência para lidar com as dificuldades de uma formação longa e realizada em outro país. “A medicina é uma carreira de resistência”, define Rogério. Para ele, a formação não depende apenas de inteligência. “É muito mais de resistência física e, sobretudo, mental, psicológica, para poder resistir os seis anos. É uma carreira de longo prazo.”
Durante a graduação, participou da liga de psiquiatria, chegou à presidência da entidade e realizou palestras, inclusive em espanhol. A experiência com comunicação também contribuiu para que fosse escolhido como orador da formatura, representando não apenas sua turma, mas os estudantes de medicina da faculdade.
Entre a psicologia e a medicina
A conclusão do curso não significa o abandono da psicologia. Rogério pretende justamente aproximar os conhecimentos das duas áreas.
Atualmente, continua atendendo como psicólogo de forma online, além de dar aulas e participar de palestras. Também desenvolve um projeto na área da saúde que pretende integrar medicina, psicologia, relacionamento humano e autoconhecimento. “Unir essas duas áreas para poder cuidar das pessoas, que isso não fique só restrito a um consultório”, explica.
A próxima etapa é a revalidação do diploma para exercer a medicina no Brasil. Rogério já realizou a primeira fase do processo em Curitiba e ainda deverá passar pela etapa prática. Os planos incluem também uma especialização relacionada ao cérebro. Entre as áreas de interesse estão neurologia e psiquiatria. “O cérebro para mim é o grande fascínio. Eu quero a caixa-preta do avião, eu quero entender o mistério”, afirma.
A intenção é aproximar os conhecimentos de neurologia, psiquiatria e psicologia. “Eu uno psiquiatria, neurologia e psicologia para fazer o que eu gosto”, resume.
Uma nova visão sobre o ser humano
Para Rogério, a medicina não substituiu o conhecimento adquirido na psicologia. A nova formação ampliou sua compreensão sobre o ser humano. “A psicologia é extremamente rica, nos dá uma compreensão muito profunda da mente humana, das contradições e da história de vida. Mas a medicina te ajuda a entender o corpo humano, a doença, a vulnerabilidade”, explica.
Durante o internato, ele teve contato com situações envolvendo vida e morte e precisou participar da comunicação de falecimentos às famílias. Foi nesse contexto que percebeu como habilidades desenvolvidas na psicologia também podem ser importantes na prática médica. “Eu percebi uma habilidade interessante, que é da escuta, do olhar, essa questão da humanidade, da empatia”, afirma.
Um recomeço aos 46 anos
A decisão de iniciar medicina aos 46 anos exigiu disposição para recomeçar em uma fase da vida em que já havia construído uma carreira. Hoje, olhando para os seis anos que ficaram para trás, Rogério considera que a experiência trouxe mais clareza sobre o caminho que deseja seguir. “Uma vez você me perguntou se era corajoso ou se era louco. A loucura, entre aspas, é uma forma de coragem”, diz.
A maturidade também mudou sua relação com as oportunidades. Rogério afirma que passou a selecionar melhor os projetos e convites que aceita. “Existem lutas que valem a pena e outras lutas que não valem a pena.”
Agora, o desafio é concluir a revalidação do diploma e iniciar uma nova etapa profissional no Brasil. Depois de uma carreira consolidada na psicologia e seis anos dedicados à medicina, Rogério De Melo Thaddeu pretende unir as duas formações em uma mesma trajetória. “Acho que é isso, correr atrás do que eu quero,” conclui.
