Programa gratuito ajuda moradores a parar de fumar com apoio profissional em Mandaguari
Parar de fumar costuma ser descrito como uma batalha silenciosa, travada entre o hábito e a vontade, entre o corpo que pede e a mente que tenta resistir. Em Mandaguari, essa disputa ganhou aliados. A Secretaria de Saúde mantém ativo o Programa de Combate ao Tabagismo, uma iniciativa gratuita que oferece suporte estruturado a quem deseja abandonar o cigarro, com atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) Centro e Esplanada.
Coordenado por Cristiane Marcato Lopes Silva, responsável pela área de saúde mental e pela condução do programa no município, o projeto integra o Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT), iniciativa do Governo Federal coordenada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). A estrutura conta com apoio estadual e federal, incluindo capacitação de equipes e fornecimento de medicamentos.
Desde a retomada, em fevereiro de 2024, o programa apresenta resultados considerados positivos, ainda que o caminho seja irregular, como é próprio de qualquer processo de cessação do tabagismo. Os grupos são formados por até 20 participantes, com cerca de 80 pacientes atendidos por ano. Nos sete primeiros grupos concluídos, os dados revelam avanços consistentes, no primeiro grupo, por exemplo, dos 20 participantes com alta dependência, 11 concluíram o tratamento, sendo que apenas dois não interromperam totalmente o uso do cigarro, mas permaneceram em acompanhamento.
Nos grupos seguintes, o número de participantes que conseguiram parar de fumar variou entre dois e sete por turma. Mesmo entre aqueles que não cessaram completamente, a redução significativa no consumo já é vista como um ganho relevante em saúde. No grupo atualmente em andamento, todos os participantes apresentaram diminuição no uso do tabaco.
A estrutura do programa vai além de encontros semanais. São 22 sessões em grupo, realizadas sempre às 19h, ao longo de aproximadamente seis meses. Antes disso, cada participante passa por uma avaliação individual, etapa que, recentemente, passou a ser determinante para melhorar a adesão. Nessa consulta prévia, são esclarecidas dúvidas, avaliadas condições clínicas e analisada a real disponibilidade do paciente. A medida ajudou a reduzir faltas e desistências logo no início.
Ainda assim, os desafios persistem. Segundo a coordenação, a principal dificuldade enfrentada pelos participantes está fora das unidades de saúde, a ausência de uma rede de apoio no cotidiano. O cigarro, nesse cenário, não é apenas uma dependência química, mas um comportamento enraizado ao longo de anos.
Para enfrentar esse obstáculo, o trabalho da equipe foca no fortalecimento emocional dos participantes, oferecendo ferramentas para lidar com a abstinência, reconhecer gatilhos e reconstruir hábitos. A proposta é desenvolver autonomia, uma espécie de musculatura invisível que sustenta a decisão de parar.
Outro ponto central é o acompanhamento multiprofissional, considerado um dos pilares do programa. Médicos, psicólogos, enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas, dentistas e educadores físicos atuam de forma integrada, permitindo uma abordagem mais ampla do paciente. O cuidado não se limita ao vício, mas alcança também aspectos emocionais, comportamentais e clínicos, aumentando as chances de sucesso.
O perfil dos participantes segue um padrão recorrente, maioria com mais de 45 anos, histórico de tabagismo desde a adolescência e consumo elevado ao longo da vida. Há equilíbrio entre homens e mulheres, com predominância de pessoas brancas e pardas, muitas delas com comorbidades como hipertensão e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). Esse cenário exige abordagens individualizadas, ajustadas à realidade de cada paciente.
A procura pelo programa é alta, e, por vezes, maior do que a capacidade de atendimento. Para formar os grupos deste semestre, foi necessário contatar mais de 100 pessoas da lista de espera para preencher 40 vagas. O grupo começou com 43 participantes, já considerando possíveis desistências, 13 deixaram o programa nas primeiras etapas.
Mesmo com essas oscilações, o programa mantém sua estrutura, dois grupos por semestre, totalizando quatro por ano. A decisão, segundo a coordenação, busca preservar a qualidade do atendimento e garantir acompanhamento adequado.
Para quem ainda hesita, a orientação é direta, o ambiente é sigiloso e acolhedor. Logo no primeiro encontro, é firmado um compromisso ético entre os participantes, garantindo privacidade e respeito. Não há exposição, apenas um espaço comum onde histórias semelhantes se encontram.
As inscrições devem ser feitas na UBS de referência do paciente. Além dos encontros presenciais, os participantes são incluídos em um grupo de WhatsApp, onde recebem orientações e lembrete, uma tentativa de manter acesa, no meio da rotina, a chama da decisão de parar.
Mais informações podem ser obtidas pelo WhatsApp (44) 9 9162-1345.
No fim, o programa não promete milagres. Promete acompanhamento, escuta e persistência. E, às vezes, é isso que separa o hábito da mudança.
