Onde você estava em 1987?

Em 1987, o Brasil atravessava um período de reconstrução que parecia não ter ponto final. Sob o governo de José Sarney, a democracia ainda buscava estabilidade após duas décadas de regime militar, enquanto a economia oscilava sob o peso de uma inflação persistente e planos que prometiam controle, mas entregavam incerteza. Havia no ar uma sensação difusa de transição, como se o país estivesse sempre prestes a se tornar algo que nunca se completava.

No campo cultural, essa inquietação encontrava eco nas ondas do rádio. Bandas como Legião Urbana, Titãs e Os Paralamas do Sucesso traduziam em versos e acordes o desconforto de uma geração que tentava compreender seu tempo. Era um Brasil que aprendia a se olhar no espelho, ainda que com alguma hesitação.

Foi nesse cenário que, em Goiânia, um acontecimento aparentemente banal abriu caminho para uma das mais graves crises sanitárias da história recente do país. Um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada foi retirado e desmontado por pessoas que desconheciam o perigo contido em seu interior. Dentro da cápsula, o césio-137, um material radioativo usado em tratamentos médicos.

O que chamou atenção, no entanto, não foi o risco. Foi a beleza.

“Eu me apaixonei pelo brilho da morte”, disse Devair Alves Ferreira, proprietário do ferro-velho que abriu a cápsula. Ele descreveu a luz azul emitida pelo material radioativo como fascinante, uma beleza hipnótica que, silenciosamente, selava o destino de sua família, amigos e vizinhos.

Sem qualquer informação sobre os riscos, o pó luminoso passou de mão em mão como curiosidade. A contaminação avançou sem alarde, invisível, até que seus efeitos começaram a se manifestar. Quando as autoridades identificaram a origem do problema, já era tarde para evitar o impacto mais severo, quatro mortes confirmadas, centenas de contaminados e mais de 100 mil pessoas monitoradas. Casas foram demolidas, áreas inteiras isoladas, e Goiânia passou a conviver com o peso de uma tragédia que não se via, mas se sentia.

A comparação com o acidente de Chernobyl, ocorrido no ano anterior, é inevitável, embora revele contrastes importantes. Enquanto o desastre soviético expôs falhas em um sistema tecnológico complexo, o episódio brasileiro nasceu de negligências mais básicas, abandono de material perigoso, falhas na fiscalização e ausência de informação acessível à população. Se Chernobyl foi o colapso de uma engrenagem sofisticada, Goiânia foi o retrato de um descuido cotidiano que ganhou escala trágica.

É nesse ponto que a história coletiva encontra a memória individual.

À época, eu tinha quase 10 anos. Não compreendia o que estava acontecendo, mas lembro com clareza de uma sensação, medo. O parâmetro era Chernobyl, a ideia de uma nuvem radioativa que atravessava fronteiras. Havia o temor, talvez irracional, mas profundamente humano, de que algo semelhante pudesse sair do planalto central e alcançar o norte do Paraná.

Não aconteceu. Mas o medo, como a radiação, tem suas próprias formas de permanência.

Os efeitos do césio-137 não ficaram restritos ao tempo imediato da tragédia. Ainda hoje, sobreviventes e familiares lidam com consequências físicas, psicológicas e sociais. O episódio também deixou marcas em trabalhadores envolvidos no armazenamento e transporte do material contaminado, uma herança invisível que atravessa gerações.

Quase quarenta anos depois, o caso retorna ao debate público impulsionado pela série Emergência Radioativa, da Netflix. A produção opta por uma abordagem gradual, evitando o espetáculo fácil e destacando justamente o elemento mais perturbador do episódio, a dificuldade em reconhecer o perigo enquanto ele ainda parecia inofensivo.

“Onde você estava em 1987?”, a pergunta, à primeira vista, soa como um exercício nostálgico. Mas, diante de Goiânia, ela ganha outro peso. Não se trata apenas de localizar uma lembrança pessoal, mas de revisitar um momento em que o país foi confrontado com suas próprias fragilidades.

O acidente com o césio-137 permanece como um marco não apenas pelo que aconteceu, mas pelo que revelou. Ele mostra que nem todas as tragédias nascem de grandes eventos ou sistemas complexos. Algumas se constroem em silêncio, a partir de falhas acumuladas, da ausência de informação e de decisões que, isoladamente, parecem pequenas demais para preocupar.

Quase quatro décadas depois, a história permanece atual. Em um mundo onde riscos tecnológicos e ambientais continuam presentes, muitas vezes invisíveis aos olhos comuns, a capacidade de reconhecer sinais, agir preventivamente e garantir informação de qualidade segue sendo determinante.

No fim, a pergunta que fica não é apenas onde estávamos em 1987. É outra, mais incômoda e necessária, diante de um novo brilho desconhecido, saberíamos resistir ao fascínio ou repetiríamos o mesmo erro, atraídos pela beleza de algo que não compreendemos?