Gaeco investiga ao menos 50 policiais militares por suspeita de cobrança de propina em rodovias do Paraná
Quarenta e dois policiais foram afastados das funções operacionais; investigação aponta pagamentos por Pix, combustível e possíveis acordos para evitar fiscalizações
Pelo menos 50 policiais militares do Paraná são investigados por suspeita de participação em esquemas de corrupção envolvendo a cobrança de propina em rodovias estaduais. Desse total, 42 foram afastados das atividades operacionais e passaram a exercer funções administrativas, segundo informações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná (MP-PR).
As investigações começaram em 2025 e apuram possíveis irregularidades em fiscalizações realizadas em estradas das regiões dos Campos Gerais e Central do estado. Segundo o Ministério Público, os policiais suspeitos teriam utilizado a atividade de fiscalização para obter vantagens financeiras indevidas de motoristas e empresas de transporte.
Um dos aspectos investigados é o uso de transferências por Pix para o pagamento de propinas. Conforme os levantamentos, em situações nas quais motoristas alegavam não ter dinheiro em espécie, policiais teriam apresentado QR codes para receber os valores. Em locais sem sinal de internet, também teria sido oferecido acesso à rede Wi-Fi do batalhão.
Mensagens analisadas pelos investigadores indicariam que alguns motoristas recebiam tratamento diferenciado após os pagamentos, incluindo a dispensa de multas ou de fiscalizações. Em um dos casos citados, um motorista teria perguntado a um policial quem estaria trabalhando na fiscalização da rodovia após mencionar que pretendia beber antes de dirigir. O agente teria respondido que estaria no local e orientado o motorista a ficar tranquilo.
Operações investigam esquemas em duas regiões
As apurações estão divididas em duas frentes, identificadas como operações Via Pix e Rota 466. A primeira faz referência ao sistema de pagamento que teria sido utilizado nas cobranças ilegais. A segunda tem relação com a PR-466, rodovia que liga Guarapuava a Pitanga.
Na quinta-feira (8), uma nova fase da Operação Rota 466 cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a 15 policiais militares e outras quatro pessoas.
As diligências ocorreram em oito municípios: Guarapuava, Ponta Grossa, Telêmaco Borba, Pitanga, Bituruna, Castro, Palmeira e Wenceslau Braz.
Durante a operação, uma pessoa foi presa por posse irregular de arma de fogo. Os agentes também apreenderam celulares, documentos e outros aparelhos eletrônicos, incluindo equipamentos com indícios de descaminho.
Segundo o Gaeco, a nova etapa foi motivada pela análise de materiais apreendidos anteriormente, que teria revelado indícios de continuidade das práticas investigadas e a possível participação de outras pessoas.
Combustível e direcionamento de serviços também são investigados
Entre as suspeitas levantadas pelo Ministério Público estão acordos financeiros fixos e o fornecimento contínuo de combustível por empresas transportadoras em troca de uma suposta isenção de fiscalizações de caminhões.
A investigação também apura possíveis fraudes na classificação de danos em veículos nos Boletins de Acidente de Trânsito Eletrônico Unificado (Bateu), além do direcionamento de serviços de guincho mediante pagamentos indevidos.
Outro ponto é a suspeita de ocultação e movimentação dos valores obtidos ilegalmente. De acordo com o Gaeco, transferências bancárias envolvendo contas de terceiros, familiares de agentes públicos e empresas dos setores de transporte e guincho podem ter sido utilizadas para dissimular a origem dos recursos.
Os fatos são investigados, entre outros, como possíveis crimes de organização criminosa, corrupção passiva, concussão, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Policiais foram transferidos para funções administrativas
Os 42 policiais afastados das atividades operacionais e ostensivas passaram a exercer exclusivamente funções administrativas. Segundo as informações divulgadas, as armas pertencentes à corporação e as armas particulares dos agentes também foram recolhidas.
O Ministério Público informou, porém, que nem todos os investigados foram afastados. Em nota, o órgão explicou que, em relação a alguns policiais, ainda é necessário aprofundar as apurações e que, até o momento, não foram identificados elementos suficientes para justificar a adoção da mesma medida.
O Gaeco acrescentou que a necessidade de novos afastamentos poderá ser reavaliada conforme o avanço das investigações e a reunião de novas provas.
Em manifestação sobre a operação, a Polícia Militar do Paraná informou que sua Corregedoria atuou em conjunto com o Gaeco no cumprimento dos mandados judiciais. A corporação declarou manter o compromisso com a legalidade, a moralidade e a transparência, além de afirmar que trabalha para identificar, apurar e punir eventuais condutas irregulares de seus integrantes.
As investigações continuam. Até a conclusão dos procedimentos, os policiais citados são considerados suspeitos, e as responsabilidades individuais deverão ser estabelecidas a partir das provas reunidas pelas autoridades.
