Um convite para estar presente

Todos os anos, quando o Dia dos Pais se aproxima, jornais, rádios e redes sociais se enchem de homenagens. Algumas emocionam, outras passam despercebidas. Confesso que pensei em escrever mais um desses textos. Mas desisti.

Não porque a data não mereça ser lembrada. Pelo contrário. Desisti porque, muitas vezes, transformamos datas comemorativas em um compromisso de calendário. Publicamos uma mensagem bonita, entregamos um presente, tiramos uma foto e seguimos a rotina como se aquilo resumisse tudo o que aquela pessoa representa em nossa vida.

Quando penso no Dia dos Pais, lembro das manhãs em que eu e meu pai caminhávamos pelo Parque da Pedreira, bem cedo, quando o sol ainda despontava. Naquela época, eu nem imaginava que aqueles momentos tão simples se tornariam tão valiosos anos depois.

Nos últimos dias, essas lembranças voltaram à minha mente. E, junto com elas, surgiu uma pergunta: será que temos nos lembrado de quem nos ajudou a crescer?

Perceba que essa pergunta não fala apenas de pais. Nem todos cresceram ao lado da figura paterna. Alguns tiveram um avô, um padrasto, um tio, uma mãe que precisou assumir dois papéis ou alguém que, sem obrigação alguma, escolheu cuidar, orientar e ensinar.

Todos nós, de alguma forma, somos resultado das pessoas que caminharam ao nosso lado.

Talvez o problema seja que a vida nos acostuma com a presença das pessoas. Acreditamos que elas sempre estarão ali. Vamos adiando uma visita, um café, uma conversa ou até uma simples ligação. Não por falta de amor, mas porque a rotina costuma nos convencer de que sempre haverá outro dia.

É justamente por isso que este texto não pretende ser apenas uma homenagem ao Dia dos Pais. Pretende ser um convite.

Um convite para desacelerar por alguns minutos. Para lembrar de quem segurou sua mão quando você ainda não sabia caminhar sozinho. Para agradecer pelos conselhos que, talvez, você só tenha compreendido anos depois. Para reconhecer que muitas das escolhas, dos valores e até dos sonhos que carregamos começaram muito antes de termos consciência deles.

No fim das contas, a vida raramente é lembrada pelos grandes acontecimentos. Ela permanece nas pequenas cenas que insistem em voltar à memória: uma caminhada ao amanhecer, uma conversa durante uma viagem de carro, um conselho repetido inúmeras vezes.

Talvez seja por isso que, neste domingo, o melhor presente seja estar presente.

Porque o tempo passa para todos. E, quando olharmos para trás daqui a alguns anos, dificilmente nos lembraremos do presente que entregamos aos nossos pais. Mas certamente nos lembraremos do tempo que escolhemos viver ao lado de quem sempre esteve conosco.