Dia das Mães: histórias de coragem, amor e recomeços que redefinem a maternidade
Entre surpresas, desafios e fé, relatos de duas mães revelam diferentes caminhos marcados pela intensidade do amor materno
O Dia das Mães costuma ser celebrado com flores, abraços e gestos simbólicos. Mas, por trás das homenagens, existem histórias que não cabem em cartões. Histórias que atravessam o medo, a exaustão, a incerteza e ainda assim florescem. Nesta edição especial, o Jornal Agora apresenta o relato de duas mães que vivenciaram experiências distintas e profundamente transformadoras, a maternidade de gêmeos em meio à pandemia e a jornada intensa de quem enfrenta a realidade de um nascimento prematuro. Dois caminhos diferentes, unidos por um mesmo eixo, o amor que sustenta.
A surpresa em dobro e o amor que se multiplica
Para Kellen Fernanda Macedo Bottura Chagas, a maternidade começou com um susto daqueles que mudam o rumo da vida. Ao descobrir que estava grávida de gêmeos, ela e o esposo foram tomados por uma mistura de emoções.
A surpresa inicial deu lugar a um processo de adaptação que viria acompanhado de desafios ainda maiores. Os filhos, Matheus e Miguel, nasceram em 9 de junho de 2020, em pleno período da pandemia de Covid-19, um cenário que adicionava camadas extras de insegurança a um momento já delicado por natureza.
O início não foi simples. Houve noites sem dormir, cansaço acumulado e dias marcados por preocupação constante. Ainda assim, segundo Kellen, o sentimento que se estabeleceu desde o primeiro instante foi maior do que qualquer dificuldade.
Seis anos depois, a rotina se transformou. Os meninos se tornaram o centro da vida da família, trazendo movimento, alegria e sentido ao cotidiano. Para a mãe, a experiência de criar dois filhos ao mesmo tempo não apenas exigiu força, mas também ampliou sua capacidade de amar.
Hoje, ela resume a maternidade como sua maior bênção, um caminho que começou com incertezas, mas se consolidou como a base de tudo o que considera essencial.
Entre a vida e o impossível: a fé que sustenta um milagre
A história de Gislaine Paulino segue por um percurso mais delicado, marcado por momentos em que a vida parecia depender de um fio invisível. Mãe de Júlia Kethellyn Paulino, ela enfrentou uma gestação que terminou de forma abrupta, a filha nasceu com apenas 28 semanas de gestação, pesando 705 gramas.
O nascimento prematuro trouxe uma realidade imediata e dura. Diferente do imaginário comum da maternidade, Gislaine não pôde segurar a filha nos braços. O primeiro contato aconteceu à distância, mediado por uma incubadora, em meio a protocolos rígidos e cuidados intensivos.
A rotina passou a ser dentro da UTI Neonatal, onde o tempo não segue o relógio convencional. Cada grama ganha, cada reação do corpo, cada sinal vital se transforma em vitória. Nesse ambiente, a fé se tornou elemento central.
A trajetória da pequena Júlia incluiu procedimentos delicados, como uma traqueostomia realizada após mais de dois meses de internação, além de episódios críticos, como paradas cardiorrespiratórias durante uma transferência de emergência. Houve momentos em que a medicina parecia não dar respostas e foi justamente nesses intervalos que, segundo a mãe, a esperança encontrou espaço.
Paralelamente, a família enfrentava outro desafio: a avó de Júlia, Elza, lutava contra o câncer. Em um vínculo que transcende explicações simples, as duas histórias passaram a se sustentar mutuamente. A cada conquista da neta, surgia um novo motivo para resistir.
A menina cresceu, superou etapas, passou por tratamentos e, anos depois, alcançou uma das maiores vitórias, a retirada da traqueostomia sem sequelas. Em 2022, a avó faleceu, mas deixou como legado uma história marcada por persistência e amor compartilhado.
Hoje, aos 11 anos, Júlia leva uma vida ativa. Estuda, pratica equitação e participa da comunidade religiosa. Para Gislaine, a trajetória da filha redefine o conceito de milagre, não como um evento isolado, mas como uma sequência de pequenas vitórias que, somadas, sustentam a vida.
O que permanece
As histórias de Kellen e Gislaine não são iguais. Nem poderiam ser. Cada uma carrega suas próprias marcas, seus próprios abismos atravessados. Ainda assim, há um ponto de encontro silencioso entre elas: a maternidade como território de resistência.
Ser mãe, nesses relatos, não aparece como ideal romântico. Surge como prática diária de coragem. Como um exercício contínuo de enfrentar o desconhecido — seja ele a surpresa de dois corações batendo ao mesmo tempo ou a fragilidade extrema de uma vida que insiste em permanecer.
No fim, o que fica não é apenas a celebração. É a compreensão de que, por trás de cada mãe, existe uma história que desafia a lógica, o tempo e, às vezes, até a própria esperança.
