Era aniversário da cidade
Crônica escrita por Donizeti Donha* e publicada na 400ª edição do Jornal Agora
Seo Gregório parou o jipe na estrada. Entradinha da cidade. Olhou por cima. Via os telhados das casas. O traçado das ruas. Guardou para sempre no mapa da memória a primeira vez que avistou Mandaguari.
Tinha vindo com uma tarefa: Gregório, não me retorne daquela cidade sem o nosso filho, o Nereu.
A voz da esposa tinha vindo se repetindo dentro da sua cabeça. A viagem toda. Desde que saíra de Birigui. Interior de São Paulo.
O filho, Nereu, tinha vindo para Mandaguari, recém-casado. Cheio de sonhos de enriquecer na terra roxa e com os frutos vermelhos do cafezal.
Fazia, já, dois ou três anos. A mãe, Dona Lourdes, sempre foi contra esta aventura do filho. Desde os primeiros dias do projeto.
Agora, Seo Gregório entrava na cidade. Em busca do filho para levá-lo embora. Conforme percorria as ruas, sentia que algo estava acontecendo.
Estudantes desfilando. Sons de fanfarras. O público lotando as calçadas. Bexigas e balões de gás soltavam-se pelos céus, sobre os telhados e árvores.
Era a data do aniversário da cidade.
Perdeu a pressa, por um instante. Decidiu descer pela Avenida. Sentir o clima da festa.
Parou em frente à Matriz, em silêncio, para recuperar as energias. Na outra quadra, a Rádio anunciava mais um programa especial do Nhô Belo. Mais adiante, o cinema anunciava a estreia do filme “Marcelino, pão e vinho”.
No balcão do Bar Guairacá, tomando um café preto, de coador, surpreendeu-se com a antiga praça. Majestosa. Por instantes, lembrou-se de sua infância em Birigui.
Quando a descontração dos estudantes anunciou que o desfile havia terminado, Seo Gregório retirou do bolso do paletó um papel cuidadosamente dobrado.
Era a única pista do endereço de Nereu, seu filho. Tinha a missão de fazê-lo retornar imediatamente, senão D. Lourdes seria capaz de qualquer coisa. Pôr fogo na casa. Afogar o marido.
Ela queria o filho e a nora de volta. De qualquer maneira.
A primeira ajuda que recebeu foi do dono do cinema. Seo Álvaro. Que ao decifrar o papelzinho, o instruiu a ir em direção à Estrada Vitória do Alegre. Partiu. Deu, porém, uma parada na Venda do 5. Para conferir a rota. Depois atravessou o Matão, com um certo medo.
De lá, já dava para avistar a cruz do alto da Capela Bom Jesus. Coração batia. Em poucos minutos estava lá. Na frente da Capela, uma venda movimentada. O dono da venda, o Vico, deu lhe notícias.
– Desde ontem, Nereu e a esposa estão na cidade. O senhor procura lá no Hospital do Doutor Santiago.
Com o coração na mão, Seo Gregório retornou, em cima do rastro. Na mesma hora. Que tipo de doença atacou o casal? De tão preocupado nem olhava mais as paisagens, as casas dos sitiantes, nem as pessoas que seguiam a pé, pela estrada.
Alucinado, entrou pela cidade e freou violentamente em frente ao hospital.
A secretária, ao ver seo Gregório naquele estado, correu com um copo d´àgua.
Apavorado, pediu informações. Não deu tempo de a moça falar. Nereu e a jovem esposa abriram a porta da recepção do hospital. Não eram mais dois. Eram três.
O médico, muito gentil, os acompanhava, alegre com a saúde da criança.
Seo Gregório, emocionado, encantando, satisfeito, jurou, naquele momento, nunca mais sair de Mandaguari. Mandou o jipe de volta. O motorista levava uma ordem. A primeira ordem que ele dava em todo o seu casamento.
– Em vez de Nereu retornar, Dona Lourdes, acho melhor a senhora também mudar para cá.
*Donizeti Donha é professor da Rede Estadual de Ensino