Pioneiros: Histórias de quem viu Mandaguari crescer

Conheça a trajetória de Zeca da Farmácia e do casal Leonildes e Luiz Lazarin

Às vésperas dos 89 anos de Mandaguari, contar a história do município é ir além dos marcos oficiais e olhar para quem viveu, no cotidiano, as transformações da cidade. Pensando nisso, a reportagem ouviu José Carlos Fontão Pérez, o “Zeca da Farmácia”, e o casal Leonildes Trintinalha Lazarin e Luiz Antônio Lazarin, moradores que acompanharam de perto esse processo e ajudam a compreender, a partir das próprias experiências, como Mandaguari se estruturou ao longo das décadas. As histórias reunidas aqui não esgotam esse percurso, mas representam parte de uma geração que contribuiu e tem muito a contar sobre o munícipio.

Zeca da Farmácia

Aos 97 anos, José Carlos Fontão Pérez, conhecido popularmente como Zeca da Farmácia, é uma das figuras que ajudam a contar a história de Mandaguari a partir da própria vivência. Com uma trajetória marcada pelo trabalho e pelo contato direto com a população, ele se consolidou como referência no município ao longo de décadas de atuação como farmacêutico.

Natural de Vargem Grande do Sul, no interior de São Paulo, Zeca chegou ainda jovem à região, trazido pelos pais em um período em que o Norte do Paraná começava a receber famílias em busca de novas oportunidades. Desde então, acompanhou de perto o crescimento de Mandaguari, presenciando mudanças estruturais, sociais e econômicas que transformaram a cidade ao longo dos anos.

“Eu vim ainda molequinho. Naquele tempo a gente ia conhecendo os lugares, não tinha essa facilidade de hoje”, relembra. Entre as memórias mais marcantes, ele cita as dificuldades de locomoção em uma época em que as estradas eram de terra e o deslocamento exigia paciência e resistência. “De primeiro, a estrada não era asfaltada. Tinha muito barro, aquelas marcas de pneu fundo, e para subir era difícil. Eu já passei por tudo isso”, conta.

Foi em Mandaguari que Zeca construiu sua vida profissional. À frente da Farmácia Brasil, ele atuou por cerca de 40 a 50 anos, atendendo gerações de moradores e acompanhando de perto a evolução da área da saúde. O estabelecimento, localizado em um ponto conhecido da cidade, se tornou referência não apenas pela prestação de serviços, mas também pela confiança construída com os clientes ao longo do tempo.

“Sou farmacêutico até hoje”, afirma, com convicção, ao destacar o orgulho pela profissão. A rotina intensa, marcada por longas jornadas de trabalho, fazia parte de uma época em que o comércio exigia dedicação integral. “A vida inteira foi ali, trabalhando, atendendo o pessoal. Era compromisso todo dia”, recorda.

Mesmo após tantos anos, Zeca mantém a lucidez e o bom humor característico. Ao falar sobre a própria saúde, adota um tom leve e descontraído. “Se eu vou no médico e ele fala que não tenho nada, então tá tudo bem, né?”, comenta. Ao mesmo tempo, reconhece as marcas do tempo e episódios vividos ao longo da vida, como um acidente que sofreu no passado.

A experiência acumulada ao longo de décadas na área farmacêutica também se reflete na forma como ele lida com os cuidados pessoais. “Tenho uma vantagem de ser farmacêutico. Sei o que tomar quando precisa”, afirma, evidenciando o conhecimento adquirido na prática do dia a dia.

Conhecido por gerações de moradores como “Zeca da Farmácia”, ele se tornou uma figura respeitada e lembrada não apenas pelo trabalho, mas pela contribuição direta à qualidade de vida da população. Sua história se mistura com a própria história do município, funcionando como um elo entre o passado e o presente.

Leonildes e Luiz Lazarin

A trajetória de Leonildes Trintinalha Lazarin, de 90 anos, e Luiz Antônio Lazarin, de 92, também integra a história de Mandaguari. O casal construiu sua vida a partir do trabalho contínuo e da convivência com a comunidade, mantendo ao longo dos anos uma atuação próxima dos moradores.

Nascidos em 20 de outubro de 1935 e 26 de março de 1934, respectivamente, acompanharam diferentes fases do desenvolvimento do município, observando mudanças no comércio, na urbanização e no cotidiano da população. Durante muitos anos, estiveram à frente de um açougue que se tornou conhecido na cidade, tanto pela qualidade dos produtos quanto pelo atendimento direto ao público.

“Naquele tempo era tudo mais simples, mas a gente fazia com capricho”, relembra Leonildes. A fala reflete um período em que o trabalho manual e a dedicação eram parte essencial da rotina, especialmente no comércio local, onde o contato com os clientes era constante.

Após encerrarem as atividades no açougue, passaram a produzir embutidos de forma artesanal em casa, com destaque para a linguiça, mantendo as receitas e métodos que já utilizavam anteriormente. A produção continuou sendo procurada por antigos clientes, o que demonstra a continuidade do vínculo construído ao longo dos anos. “Acho que é isso que fez o pessoal nunca esquecer”, comenta Leonildes.

Luiz destaca a intensidade da rotina de trabalho ao longo da vida. “A gente trabalhou bastante, levantava cedo, não tinha tempo ruim. Era serviço todo dia, mas a gente gostava do que fazia”, afirma. Mesmo depois de deixarem o comércio, a procura pelo produto ainda acontece com frequência. “Até hoje tem gente que vem aqui em casa perguntando. Isso deixa a gente feliz”, diz.

Além da atividade profissional, Luiz também mantém como hábito a criação de pássaros, prática que faz parte do seu dia a dia e que ele associa a momentos de tranquilidade. “Eu sempre gostei dos passarinhos, de ouvir o canto deles”, relata.

Ao olharem para a própria trajetória, os dois reconhecem as mudanças vividas pela cidade ao longo das décadas, tanto na forma de trabalhar quanto nas relações do cotidiano. “A gente vê tudo mudar, mas sabe que fez parte disso”, resume Leonildes.

Assim como Zeca, Leonildes e Luiz são exemplos de longevidade aliada à contribuição social. Sem a pretensão de esgotar essas narrativas, os exemplos reunidos nesta reportagem indicam a importância de registrar e preservar experiências de quem acompanhou de perto as transformações da cidade. Em meio às mudanças, são essas vivências que ajudam a dar dimensão concreta à história local e a compreender os caminhos que ainda estão sendo construídos.