Democracia não é campeonato
Mais de 158,7 milhões de brasileiros estavam aptos a votar no primeiro turno das eleições gerais de 2026. Foram escolhidos presidente, governadores, senadores e deputados. Cerca de 125,2 milhões compareceram às urnas, enquanto 33,4 milhões não votaram.
Durante uma eleição, é natural haver lados. Candidatos disputam votos, partidos defendem suas posições e eleitores fazem suas escolhas. O problema começa quando essa disputa passa a ser tratada como uma guerra em que o adversário precisa ser eliminado e não como parte legítima da mesma sociedade.
Democracia não é campeonato.
Quem vence uma eleição recebe um mandato, não a unanimidade. Quem perde continua tendo direito à opinião, à crítica e à participação. E quem não votou continua submetido às decisões tomadas pelos eleitos.
Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da democracia, aceitar que o resultado das urnas pode ser diferente daquilo que desejávamos.
Isso não significa concordar com o resultado. Significa reconhecer as regras que permitiram que ele acontecesse e preservar o direito de que, numa próxima eleição, outras escolhas sejam apresentadas e disputadas.
O primeiro turno também mostrou que participação não pode ser tratada como algo garantido. Mais de um quinto do eleitorado não compareceu às urnas. As razões são diversas e não permitem conclusões simplistas, mas o dado lembra que democracia depende, em alguma medida, da disposição das pessoas de participar.
Depois da apuração, entretanto, começa uma tarefa diferente: acompanhar o poder.
Criticar governo, cobrar promessas, fiscalizar representantes e discordar de decisões não são ameaças à democracia. São parte dela.
No fim, uma eleição não deveria deixar uma sociedade dividida entre vencedores que podem tudo e derrotados que não podem nada.
A eleição separa escolhas. A democracia precisa garantir que, depois delas, ainda sejamos capazes de conviver.
