Amigos da Comunidade: quando ouvir também é uma forma de cuidar
Iniciativas da Igreja Metodista e da Paróquia Nossa Senhora Aparecida oferecem atendimento psicológico a valores acessíveis e ajudam a ampliar o acesso à saúde mental
Cuidar da saúde mental também significa criar caminhos para que as pessoas possam buscar ajuda quando precisam. Para quem enfrenta dificuldades financeiras, o custo de uma sessão de psicologia pode se tornar uma barreira. Em Mandaguari, projetos desenvolvidos por instituições religiosas procuram criar alternativas para quem precisa de acompanhamento psicológico e não consegue arcar com os valores convencionais.
Em mais uma edição da série Amigos da Comunidade, o Portal Agora conheceu duas dessas iniciativas: o projeto desenvolvido pela Igreja Metodista e o Projeto Escuta, da Paróquia Nossa Senhora Aparecida.
Igreja Metodista: projeto com mais de 15 anos
Na Igreja Metodista, o projeto social de atendimento psicológico existe há mais de 15 anos. A iniciativa surgiu a partir da percepção de membros da igreja e psicólogas sobre dificuldades emocionais apresentadas por pessoas ligadas à comunidade.
Segundo a coordenadora Mônica Peres Argenton, “o projeto da igreja Metodista surgiu há mais de 15 anos atrás, quando um grupo de membros da igreja e psicólogas se reuniram para iniciar um projeto social dentro da instituição devido às queixas emocionais trazidas pelos responsáveis ministeriais”.
Atualmente, o atendimento começa pelas células da igreja. Quando um líder percebe que um participante está enfrentando dificuldades emocionais ou psicológicas, conversa com a pessoa e, caso ela tenha interesse, faz o encaminhamento para a secretaria. Ali, é preenchida uma ficha com dados iniciais e, depois, a pessoa passa por uma triagem com a coordenação.
Após essa etapa, o paciente é encaminhado para uma das profissionais disponíveis, de acordo com a demanda apresentada. Há psicólogas que atendem crianças, outras adultos e também profissionais que trabalham com casais. Também é realizado atendimento para crianças autistas nível 1.
O projeto conta atualmente com sete psicólogas: Mônica, Carla, Adriana, Camila Fernanda, Luana Sales, Josemara, Mariana Dutra e Ana Paula.
Um dos principais diferenciais é o valor social das sessões. Conforme a condição financeira de cada pessoa, a contribuição varia de R$ 5,00 a R$ 60,00. A proposta é priorizar quem realmente não consegue pagar o valor convencional de uma sessão particular. “É de suma importância o atendimento psicológico social para que possamos oferecer uma vida saudável para aqueles que estão buscando o autocuidado e melhorar sua qualidade de vida”, afirma Mônica.
Para ela, o cuidado com a mente também pode refletir no bem-estar geral. “Trabalhar seu psiquismo, sua mente melhora o organismo por inteiro e como consequência melhoramos todos à sua volta”.
Paróquia Nossa Senhora Aparecida: projeto com mais de 20 anos em Mandaguari
Na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, a história segue o mesmo objetivo. O Projeto Escuta também nasceu de uma preocupação com a saúde mental, mas começou a ser estruturado a partir de ações de conscientização sobre o tema.
De acordo com a psicóloga e neuropsicóloga Daniele Parra Vinholi, uma das responsáveis pelo projeto, a iniciativa nasceu a partir de uma proposta do Padre Francisco Muchiuttii, que promoveu um ciclo de palestras sobre saúde mental e questões da sociedade. Depois, com a chegada do Padre Toninho, surgiu a ideia de transformar aquela mobilização em um projeto de atendimento psicológico.
O projeto começou por volta de 2006/2007, conforme o relato, inicialmente com aproximadamente quatro psicólogas. A paróquia cedeu o espaço e parte dos móveis foi obtida por meio de doações. “Então nós iniciamos comi umas quatro psicólogas, mais ou menos. E o Padre nos cedeu espaço. Juntamos alguns móveis por doação. E iniciamos esse projeto”, conta a responsável.
Com o passar dos anos, o Projeto Escuta foi ampliado. Atualmente, aproximadamente 20 psicólogos estão ativos na iniciativa, que conta, além de Daniele, com mais duas coordenadoras: Rosana Campigotto e Carmen Sespede.
Para ter acesso ao atendimento, a pessoa deve procurar a secretaria da paróquia. São informados dados como nome, idade e horários disponíveis. Depois, o caso passa por triagem e é encaminhado aos profissionais que possuem disponibilidade.
A realidade financeira também é considerada. “Priorizamos pessoas da comunidade carente, que realmente não possam custear um tratamento psicológico”, explica.
Os profissionais podem realizar os atendimentos na clínica vinculada ao projeto ou em seus próprios consultórios, conforme a organização de cada caso. O valor possui caráter social e também contribui para a manutenção da estrutura. “É cobrado um valor simbólico. Não é um valor, é uma contribuição para até mesmo que a clínica funcione”, explica. Entre os custos estão despesas básicas do espaço, enquanto a igreja disponibiliza o local para o funcionamento da iniciativa.
O Projeto Escuta também mantém uma organização voltada aos profissionais. Há reuniões mensais e supervisoras que auxiliam os psicólogos por meio dos grupos de supervisão. A proposta é oferecer suporte aos profissionais e contribuir para o desenvolvimento do trabalho realizado.
A coordenação passou por uma mudança no início deste ano, quando Sueli Corazza, que estava à frente da iniciativa, deixou a função. A história do projeto também foi registrada por ela, reunindo parte da trajetória construída desde os primeiros anos.
“Os psicólogos são muito prestativos. Eles se doam, cobrando um valor simbólico”, afirma a responsável. Para ela, esse trabalho é uma maneira de contribuir para que mais pessoas tenham acesso ao cuidado psicológico.
Aprendizado
Embora atuem em comunidades diferentes e com dinâmicas próprias de triagem e atendimento, o Projeto Escuta e o projeto social da Igreja Metodista compartilham uma mesma convicção: a de que o cuidado com a saúde mental é um direito fundamental e uma expressão prática de amor ao próximo.
Em um mundo onde o sofrimento psíquico muitas vezes é invisibilizado ou encarado com preconceito, a atuação dessas psicólogas e voluntários mostra que acolher a dor alheia exige sensibilidade, estrutura e compromisso profissional. Ao oferecerem um espaço seguro de escuta desprovido de julgamentos, essas iniciativas devolvem a dignidade e a capacidade de sonhar a dezenas de famílias que não teriam acesso à terapia na rede privada.
Ao final de cada sessão, o maior resultado alcançado por esses projetos não se mede em números ou estatísticas, mas na transformação silenciosa e diária de cada paciente. Seja ao superar um luto, ao reorganizar a dinâmica familiar ou ao reencontrar o equilíbrio emocional, a comunidade de Mandaguari descobre que a verdadeira solidariedade começa quando nos dispomos a escutar com empatia e estender a mão para cuidar do outro por inteiro, assim como Jesus faz.
