Amigos da Comunidade: projetos esportivos que vão muito além da competição
Projetos de Basquete, Muay Thai e Jiu-Jítsu mostram que o esporte vai muito além das competições e se torna uma ferramenta de educação, disciplina e inclusão social
Em uma quadra, em um tatame ou dentro de um ginásio, o esporte costuma ser lembrado pelas vitórias, medalhas e campeonatos. Mas, para quem dedica parte da vida a ensinar crianças e adolescentes, o maior resultado nem sempre aparece no placar. Ele está na mudança de comportamento, na disciplina adquirida, na confiança conquistada e nas oportunidades que surgem para quem encontra, no esporte, um novo caminho.
Em Mandaguari, projetos conduzidos por voluntários e professores vêm demonstrando que uma bola, um kimono ou um par de luvas podem representar muito mais do que equipamentos esportivos. Eles se transformam em instrumentos capazes de aproximar famílias, fortalecer valores e oferecer novas perspectivas para dezenas de crianças e jovens.
Nesta edição da série Amigos da Comunidade, o Jornal Agora apresenta três iniciativas que têm em comum a paixão pelo esporte e o desejo de formar pessoas antes mesmo de formar atletas.
Basquete em Mandaguari
Tudo começou há aproximadamente dez anos, quando Roberval Simões Rodrigues percebeu que seus filhos haviam descoberto uma nova paixão. Eles se reuniam com outros meninos para jogar basquete em um posto de combustíveis, onde existia apenas uma cesta improvisada. Curioso, Roberval resolveu acompanhar aquele encontro e encontrou cinco crianças que, assim como ele um dia, demonstravam vontade de aprender o esporte.
A cena fez com que ele voltasse no tempo. Quando tinha cerca de 12 anos, participou de uma escolinha de basquete e guarda até hoje as lembranças daquele período. Foi então que surgiu a ideia de oferecer às crianças de Mandaguari a mesma oportunidade que um dia recebeu.
Depois de conseguir autorização para utilizar a quadra do então CEEBJA, todos os dias, ao sair do trabalho, seguia para os treinamentos. O começo foi simples. Cada aluno levava sua própria bola, cadeiras eram utilizadas para alguns exercícios e praticamente não existiam materiais esportivos. Um gesto de solidariedade, porém, mudou o rumo do projeto.
Uma pessoa, de forma anônima, doou cinco bolas oficiais de basquete. A ajuda renovou o entusiasmo do grupo e permitiu que os treinamentos continuassem em melhores condições. “Foi uma ajuda fundamental para que o projeto seguisse em frente”, recorda Roberval.
Com o passar dos anos, o número de participantes cresceu. A Prefeitura de Mandaguari passou a apoiar a iniciativa, oferecendo estrutura, transporte, materiais e participação em campeonatos. Hoje, o trabalho é desenvolvido ao lado do professor Anderson Brito, reunindo atletas das categorias masculina e feminina, desde crianças até equipes adultas.
Embora os resultados esportivos tenham evoluído, Roberval afirma que o maior objetivo continua sendo outro. “Mais do que formar equipes competitivas, nosso principal objetivo é formar pessoas”.
Para ele, não existe recompensa maior do que acompanhar a evolução dos alunos. “Quando uma criança aprende um fundamento, acerta um arremesso pela primeira vez e sorri, percebemos que todo o esforço valeu a pena”.
Hoje, antigos alunos já são adultos, formaram suas famílias e continuam levando consigo valores aprendidos dentro da quadra, como disciplina, respeito, trabalho em equipe e responsabilidade.
Muay Thai na Igreja Metodista
A campeã mundial de Kickboxing e Muay Thai, Maria Gomes de Lima de 25 anos, também encontrou no esporte uma maneira de contribuir com a comunidade. Ela sempre sonhou em desenvolver um projeto voltado às crianças. O maior obstáculo era a falta de espaço e de estrutura para iniciar as atividades.
A oportunidade surgiu através da Igreja Metodista de Mandaguari, que disponibilizou o tatame e o local para o início das aulas. Hoje, todas as quintas-feiras, crianças a partir de cinco anos participam gratuitamente dos treinamentos de Muay Thai.
Para Maria, o objetivo nunca foi revelar campeões. “Eu sempre acreditei que o esporte salva e muda a vida das crianças”. Ela explica que a maioria dos alunos provavelmente nunca disputarão uma Olimpíada ou viverão do esporte, mas isso não diminui a importância da prática. “A disciplina, a confiança e tantas outras qualidades que elas desenvolvem talvez não surgissem sem o esporte”.
Mesmo mantendo uma rotina intensa de viagens para competições, Maria faz questão de continuar dedicando parte do seu tempo às aulas. “O que mais me motiva é ver o quanto elas melhoram a cada treino. É gratificante acompanhar essa transformação”.
Para ela, o esporte ensina muito mais do que técnicas. Respeito, autocontrole, disciplina e perseverança acabam sendo levados para a escola, para a família e para a vida adulta. E a mensagem que deixa é simples: “Hoje é o mais novo que você vai ser”.
Projeto Leão de Judá
Em 2020, em plena pandemia, um sonho começou a ganhar forma dentro da Igreja Metodista das Populares 2. Foi naquele período que Reginaldo Pereira Mangueira decidiu utilizar o Jiu-Jítsu como ferramenta para alcançar crianças e adolescentes.
O projeto começou com apenas seis alunos. A proposta era ensinar muito mais do que golpes e técnicas. Desde o primeiro treino, o objetivo era trabalhar disciplina, respeito, responsabilidade, perseverança e autocontrole.
Cinco anos depois, aquele pequeno grupo tornou-se o Projeto Leão de Judá, que hoje atende mais de 70 participantes entre crianças, adolescentes e adultos. “É muito gratificante olhar para trás e perceber que aquele sonho que começou tão pequeno hoje alcança tantas famílias em Mandaguari”, afirma Reginaldo.
Além das aulas, o projeto promove competições, como a Copa Leão de Judá de Jiu-Jítsu Infantil, reunindo atletas, familiares e dezenas de voluntários que ajudam na organização dos eventos.
Para Reginaldo, o maior desafio é manter a estrutura necessária para que o projeto continue crescendo, conciliando o voluntariado com a rotina de trabalho e família. Ainda assim, ele garante que todo esforço é recompensado quando percebe a evolução das crianças. “Nossa intenção é formar atletas, mas principalmente formar cidadãos melhores”.
Segundo ele, cada aluno aprende que derrotas fazem parte do processo e que sempre é possível levantar e continuar. “Podemos cair, perder e enfrentar dificuldades, mas precisamos aprender a levantar”.
Aprendizado
Embora utilizem modalidades diferentes, os três projetos compartilham o mesmo propósito: mostrar que o esporte é capaz de transformar vidas.
Enquanto alguns enxergam apenas uma bola, um tatame ou uma luta, Roberval, Maria e Reginaldo veem oportunidades de ensinar valores que permanecerão muito depois do fim de cada treino.
Em comum, eles acreditam que medalhas e troféus são importantes, mas jamais superarão a satisfação de acompanhar uma criança mais disciplinada, um adolescente mais confiante ou um adulto que leva para a vida aquilo que aprendeu durante a prática esportiva.
