Esporte

Vitória do Atlético-MG ficará marcada em jogo finalizado no sacrifício e em contexto bizarro

Jogo contra o América de Cali foi em uma Barranquilla com barulho de bombas em conflito entre manifestantes e polícia, com gás lacrimogêneo invadindo campo e forçando cinco paralisações

O conflito na Colômbia não era novidade, muito menos em Barranquilla. Na noite anterior, Junior e River Plate sofreram com o gás lacrimogêneo da polícia local, usado contra manifestantes que tomam as ruas contra medidas do governo colombiano. O duelo do Galo com o América de Cali foi transferido de uma zona conflituosa (Bucaramanga) para outra, sem sentido.

O próprio técnico Cuca, que trouxe uma visão diferente da atuação do árbitro diante da situação, já havia alertado para a falta de bom senso da transferência: "A Conmebol decreta e você precisa acatar". O primeiro tempo no estádio Romélio Martínez, enquanto bombas estouravam do lado de fora, teve 61 minutos e 45 segundos de duração. Foram quatro paralisações, com direito a jogadores abandonarem o campo de jogo.

O gás invadia o estádio, aberto em todos os lados. E logo entravam nas vias aéreas dos jogadores e comissões técnicas. O atacante Hulk, autor do primeiro gol, chegou a cair dentro de campo por conta da situação de pura falta de segurança, até mesmo sanitária. Um ambiente insalubre para a prática esportiva. Andrés Cunha, o árbitro da partida com poder de paralisação e até suspensão, assim como o delegado do jogo, o colombiano Juan Alejandro Hernández, evitaram ao máximo uma medida mais radical.

O ápice veio na reta final do primeiro tempo. Após nova paralisação ser interrompida, os jogadores voltaram pro gramado. A zaga do América de Cali trocava passes infrutíferos, os atletas do Atlético recuaram até o meio de campo, parados, até forçarem o juiz a iniciar o intervalo, que teve duração de quase 25 minutos, gerando um clima de incerteza.

Naquele momento, a razão indicava que o jogo deveria ser suspenso, e o segundo tempo realizado em nova data, em outro local. Mas e o calendário? O do América de Cali não seria problema, está eliminado na Colômbia. O do Atlético precisaria "parir" uma nova data. Mas é uma questão de relevância imensuravelmente inferior à saúde dos atletas.

- Pior coisa da minha vida. Não havia condições. Sequer conseguíamos ficar dentro de campo. Ardia tudo: olho, garganta, nariz, tudo. Espero nunca mais passar por isso - disse o lateral Guga, um dos destaques defensivos do Atlético.

O regulamento da Conmebol é claro e prevê situações de crise que possam impactar no desenrolar da partida. Veja o que diz o artigo 5.1.12:

"A interrupção, suspensão e abandono do campo de jogo ou cancelamento da partida são o último recurso possível e somente poderão ocorrer quando houver uma ameaça clara e iminente à segurança dos jogadores, oficiais e/ou público."

Gás lacrimogêneo à parte...

O desempenho do Atlético em campo, assim como o América de Cali, foi diretamente afetado pelo fator externo que invadiu o campo e o corpo dos atletas. O técnico interino dos Diablos, Jerrson González, foi enfático: "Nessas condições, impossível jogar o futebol. Impossível!". O Atlético praticou, venceu com méritos, com grande volume de criação de jogadas e finalizações que precisam melhorar, assim como a contensão de contra-ataques.

Com bom toque de bola e saída rápida pra aproveitar espaços, o time mineiro deu grande trabalho e fez do goleiro Graterol um dos destaques. Logo de cara, o Atlético teve dois ataques anulados por impedimento. O gol ia amadurecendo e veio com Nacho Fernández, um maestro no meio de campo, cruzando para Hulk, que não fez uma partida tão de alto nível como outrora, cabecear.

Ainda que não estivesse numa noite iluminada, e baqueado pelo gás lacrimogêneo, o camisa 7 foi bastante participativo e lutou. Logo após o gol do artilheiro, entretanto, o Atlético deu espaços principalmente no lado esquerdo. Faltou proteção naquela região e, num combate errado de Junior Alonso, em jogada de rapidez de Moreno (o mais perigoso do América), veio o empate dos colombianos.

O Galo sofreu mais do que devia por esse setor, que carece de uma revisão posicional, já que Guilherme Arana é uma peça ofensiva indispensável, ainda mais com Keno longe de seus dias de brilho no Galo. O América de Cali, bem limitado taticamente, ainda conseguiu acertar a trave no segundo tempo, quando o Alvinegro já estava na frente novamente, após golaço de Arana. Cuca só fez as primeiras substituições depois dos 30 minutos do segundo tempo, quando viu o time perder força de contra-ataque.

Mexeu bem, com Tardelli e Vargas aproveitando vacilo do América de Cali, e o chileno encerrando o jogo com o terceiro gol, em belo chapéu no goleiro após passe milimétrico do camisa 9. Fica a classificação merecida do Atlético, que sobra no grupo e terá dois jogos para carimbar a liderança - Cerro Porteño (fora) e La Guaira (em casa), podendo focar com mais tranquilidade na ida e na finalíssima do Campeonato Mineiro, marcadas para os próximos dois fins de semana.

- Iremos com força máxima. Mas a força máxima não significa o mesmo 11 que jogou hoje. Eu irei medir, junto com a fisiologia, com a preparação física, todos que estiverem nas melhores condições. Essa será a força máxima - disse Cuca.

Eduardo Sasha sequer entrou em campo, assim como Alan Franco , Hyoran, Nathan e Marrony, sendo que o último nem ficou no banco de reservas. Tardelli, Réver, Allan, Vargas e Dodô jogaram menos de 20 minutos. O Galo, classificado na Libertadores, vai forte pra tentar o bicampeonato estadual.