Mandaguari

O legado de Galera

Relembre a trajetória de Antônio Galera Gonçalez

De técnico em contabilidade a um dos gestores mais importantes da história de Mandaguari. Essa é a história de Antônio Galera Gonçalez, que faleceu aos 88 anos, no dia 14 de junho. Nas próximas linhas vamos relembrar a história de um personagem que foi muito impactante na sociedade local.

Origem

Galera nasceu em Birigui, no noroeste de São Paulo, em 29 de setembro de 1931. Filho de Antônio Galera Garre e Ana Gonçalez Mansano, descendentes de espanhóis. Estudou em Birigui até os 18 anos e concluiu o último ano de estudos para técnico em contabilidade em Andradina, também no estado de São Paulo, para onde mudou-se, com o objetivo de ajudar o pai a administrar a atividade comercial de beneficiamento de café e arroz em Guaraçaí, distante cerca de 30 quilômetros de Andradina.

Durante o dia trabalhava com o pai e à noite seguia para Andradina, fazendo esse trajeto até a conclusão do curso. Aos 20 anos, assumiu todos os negócios da família de seis irmãos, constituída de uma mulher e cinco irmãos, motivo de preocupação para Galera, já que a empresa não comportava acomodar mais quatro irmãos nos negócios. Nessa época Galera já era casado com Antônia Garcia Galera, com quem namorou por cinco anos. A união aconteceu em 4 de dezembro de 1954, ele com 23 anos e ela com 22. Foi quando surgiu o primeiro convite que começou a desenhar seu destino.

De Birigui a Mandaguari

No segundo semestre de 1956, Galera foi convidado por um tio para auxiliar a administrar uma máquina de beneficiamento de café, em Birigui. Ficou lá até abril de 1957.

Naquele mesmo ano, Manoel Donha Sanches, comprador de café, natural de Birigui e que viria a ser prefeito de Mandaguari entre 10 de dezembro de 1963 a 31 de janeiro de 1969, fez um convite ao tio de Galera, para que este viesse ao Paraná comercializar o grão que era base da agricultura na época.

Galera, com 25 anos, foi, então, convidado pelo tio para vir a Mandaguari e gerenciar o negócio, com participação na sociedade. Eles arrendaram uma beneficiadora, cujo prédio ainda existe na Rua Gomercindo Bortolanza, a rua do cemitério.

Os planos de tio e sobrinho eram de comercializar apenas a safra de café do segundo semestre de 1957 em Mandaguari e depois os negócios voltariam a ser centralizados em Birigui. Galera chegou à cidade em 29 de abril daquele ano e, segundo ele, “embaixo de muita chuva”. Ele e a esposa foram se adaptando ao modo de viver dos mandaguarienses. A cidade não possuía rede elétrica e a eletricidade vinha de um gerador que funcionava apenas das 14h às 22h, e as condições de vida eram de muita dificuldade.

O ano chuvoso não atrapalhou a comercialização do grão, e no final da safra, a empresa havia lucrado somente em Mandaguari cerca de dois milhões de cruzeiros, moeda corrente da época. Com o sucesso da empreitada ficou resolvido que comprariam a beneficiadora

Os negócios prosperaram, mas em agosto de 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, o país entrou em crise, e as dívidas acumularam.

Cocari

A situação começou a melhorar em 1962, com a criação da Cooperativa dos Cafeicultores de Mandaguari (Cocari), fundada por um grupo liderado por Oripes Rodrigues Gomes, primeiro presidente da cooperativa.

Galera alugou sua máquina de beneficiamento para a Cocari. Até março de 1963, a máquina fez quase 77 mil sacas de café limpo. Com o dinheiro, ia pagando as dívidas e fortalecendo sua imagem junto dos credores e da cidade.

Vida pública

A fama de honesto e bom pagador fez com que Galera fosse chamado à vida pública. Em 1969, Oripes Gomes decidiu se candidatar à Prefeitura de Mandaguari, e convidou Galera para compor sua chapa como vereador.

Galera resistiu, mas aceitou. Oripes não conseguiu se eleger, mas Galera sim, chegando à Câmara e dando mais um passo em sua participação no desenvolvimento de Mandaguari.

Colari

Ainda em 1969, após ser eleito vereador, Galera foi chamado para reorganizar a situação da Cooperativa de Laticínios de Mandaguari, que estava em crise. Em virtude de ter ficha bancária muito boa, conseguiu restabelecer o crédito da cooperativa, ficando à frente da administração até 1975.

Não foi à toa que o nome de Galera foi cogitado para socorrer a Colari. Ele foi bastante atuante na fundação da cooperativa em 1964.

Prefeitura

Em 1972, Galera foi eleito prefeito de Mandaguari, com quase 80% dos votos. Assumiu em janeiro de 1973 e administrou a cidade até 1977.

Em 1974, criou o Parque Industrial, às margens da BR-376. O objetivo inicial era instalar uma indústria que atendesse os cafeicultores. Porém, a geada de 1975 dizimou 80% dos cafezais.

Visionário, Galera enxergou o potencial industrial da cidade e negociou com empresas como a Romagnole, que se estabeleceram no local e deram um novo rumo à economia local.

Também foi o responsável pela construção do Módulo Cultural e do Centro Esportivo do Jardim Esplanada. Galera voltou a se candidatar em 1982, sendo eleito novamente e governando a cidade de 1983 a 1988. Após isso, se lançou candidato a prefeito mais uma vez, em 1992, quando foi derrotado nas urnas por Alexandre Elias Nacif, o Xandu. Também compôs a chapa de Maria Inês Botelho, mas como vice, em 2000, porém a dupla não se elegeu.

Sindicato Rural Patronal

Galera também teve um papel importante no Sindicato Rural Patronal de Mandaguari, entidade na qual ocupava o cargo de presidente até a data de sua morte.

“Sem rabo de palha”

Em entrevista anterior concedida ao Jornal Agora, no ano de 2013, Galera disse que se considerava realizado pela contribuição dada à cidade, pelas amizades que fez e por poder andar pelas ruas “de peito aberto por ter cumprido meu dever social, não ter ‘rabo de palha’ e nenhum processo”. Não sem motivo, Galera foi sepultado com honras militares, e seu nome está marcado para sempre na história de Mandaguari.

Depoimentos de ex-prefeitos e do atual prefeito sobre Galera

“Lamento muito a perda do Galera. Ele participou de muitas gerações da política, sempre com muita dedicação, e foi muito respeitoso pelos adversários. Uma perda imensurável para Mandaguari” – Carlos Alberto Campos de Oliveira, prefeito na gestão 1989-1992.

 “Galera foi um dos mais importantes personagens da história política recente de Mandaguari. Quando prefeito foi muito austero com os gastos e tinha uma das suas características, a de manter as contas da Prefeitura equilibradas, entre as receitas e despesas e ao mesmo tempo também tinha uma visão estratégica sobre o futuro da cidade e de seus espaços urbanos. Deixa um legado de um prefeito que se preocupou com o bem público e manteve uma vida financeira independente e sólida no lado pessoal” – Ari Stroher, prefeito na gestão 2001 a 2004 e atual vice-prefeito.

“Embora tenha administrado o município 18 anos depois do Galera, sempre ouvi dizer que era linha dura com as contas públicas e seguro nos investimentos. Muitos funcionários remanescentes elogiavam sua administração. Apesar de estarmos sempre em palanques contrários, sempre mantivemos uma relação de muito respeito. Deixou um importante legado na história política, empresarial e social na cidade” - Cyllêneo Pessoa Pereira Jr, Cileninho, prefeito nas gestões 2005-2008 e 2009-2012.

“Lamento profundamente o falecimento do e ex-prefeito ex Vereador, Antônio Galera, que tanto fez por nossa cidade e deixa um grande legado para todos os mandaguarienses, inclusive para mim que sempre o tive como fonte de inspiração, admiração e de ser humano. Perdemos um dos homens que mais fez por nossa gente seja na área pública, como empresário, agricultor e conselheiro” – Romualdo Batista, Batistão, prefeito na gestão 2013-2016 e atualmente.

*Reportagem publicada na 348ª edição do Jornal Agora