Mandaguari

Nada foi mais inútil do que ele

Confira o artigo do jornalista André De Canini publicado na edição 327

Passei o primeiro final de semana deste mês reorganizando armários e gavetas no meu escritório. Terminada a faxina, foram descartados mais de 20 quilos de papéis com anotações, documentos sem validade, recibos, notas fiscais, extratos bancários, apostilas com informações desatualizadas, lembrancinhas, embalagens... Encontrei até dois pacotes de papel fotográfico que no passado usava para revelar fotos em preto e branco, um deles vencido desde 1999 e outro desde 2003.
Embora ultimamente tudo aquilo tenha sido um peso morto ocupando espaço no meu ambiente de trabalho, em algum momento cada um daqueles itens teve alguma importância. Bem diferente dos meus cadernos de caligrafia, que eu imagino ainda ter algum perdido nos armários da casa da minha mãe. Nesses 45 anos de idade, que completarei nos próximos dias, não me lembro de ter utilizado nada mais inútil do que ele: o caderno de caligrafa.
Somando o período de pré-escola, primário e ginásio (hoje conhecidos como ensino fundamental), segundo grau (atual ensino médio), faculdade e pós-graduação, passei quase 25 anos nos bancos escolares. Em cada uma dessas fases, diferentes problemas. Nos primeiros anos foi o fato de conversar e rir muito em sala de aula. Na adolescência as dificuldades com os cálculos da matemática e da física, aliados à falta de compromisso com os estudos, fizeram com que eu demorasse oito anos para concluir os três períodos do segundo grau. Na faculdade e na pós-graduação, cursadas já na idade adulta, meus principais problemas com os estudos estavam superados, menos um, que me acompanha desde que comecei a colocar no papel as primeiras vogais: a letra feia.
Não foi por falta de esforço. As primeiras professoras pegavam no pé, me faziam preencher cadernos e mais cadernos de caligrafia no intuito de reverter isso. Certa vez, mesmo com excelentes notas, me incluíram num grupo de reforço escolar na tentativa de melhorar a estética da minha escrita. E lá se foi mais um caderno de caligrafia... E mais uma vez nenhum resultado prático...
Há alguns anos, enquanto produzia uma matéria, precisei entrevistar uma antiga colega de escola. A conversa ainda estava começando, quando fiz as primeiras anotações em meu bloco ela não se conteve: “Nossa André, sua letra continua horrível! ”. Não deu pra segurar o riso. Realmente, a letra feia é uma das minhas marcas registradas.
O problema é que em se tratando de caligrafia, a Lei de Murphy tem sido implacável comigo. O que era ruim, só vem piorando com o passar dos anos. Felizmente hoje contamos com a tecnologia e não é mais necessário papel e caneta, seja ela azul ou não, para escrever. Se dependesse dos resultados do meu esforço preenchendo os incontáveis cadernos de caligrafia para fazer isso, certamente você não estaria lendo esse texto agora. Hoje, quando escrevo a mão, somente eu e Deus conseguimos entender. Três segundos depois isso passa ser exclusividade Dele, pois eu também passo a ter dificuldade para decifrar meus garranchos.