Mandaguari

Como está a sua saúde mental?

Psicóloga fala sobre o impacto da pandemia na saúde mental da população

Nos últimos tempos, Saúde se tornou um termo usado incontáveis vezes no decorrer de nossas rotinas. Temos vivido tempos onde passamos o tempo todo zelando de nossa saúde física, usando máscaras, nos prevenindo do contágio com o novo vírus, nos precavendo de possíveis outras doenças, porém, a maioria da população sequer pensou em parar por um momento e fazer uma autoavaliação de sua mente. Como está a sua saúde mental?

Os efeitos da pandemia surtiram na população transtornos psicológicos desconhecidos para alguns e intensificou sentimentos que já eram recorrentes na vida de outros, como exemplo disto podemos citar a ansiedade. Desde a infância, é absolutamente comum ver uma criança alegando estar ansiosa para o natal, ou qualquer outra coisa que despertasse nesta certa animação. Contudo, desde que o medo e a angústia se instalaram na mente e nos corações da população, essa animação ou elevada apreensão de que algum evento não ocorra de acordo com o planejado passou a ser comum para todos como o transtorno de ansiedade.

Em entrevista à reportagem do Jornal Agora, a psicóloga Mariane Clara Honorio da Costa (CRP 08/20043) contou que, devido ao isolamento imposto pela pandemia, sentimentos como a angústia, o medo e a tristeza passaram a se intensificar. “O isolamento por si só já tem consequências muito ruins, mas o isolamento forçado tem resultados ainda piores”.

Mariane confessa que recentemente o distúrbio psíquico que mais tem tratado em sua clínica é o transtorno de ansiedade. Tal distúrbio de saúde mental é caracterizado por sentimentos de preocupação, ansiedade ou medo que são fortes o bastante para interferir nas atividades diárias. “O que temos visto na clínica, é que as pessoas têm estado muito mais ansiosas[...]Varia muito de caso para caso, mas aqui na clínica o que nós temos visto é que a população está com a ansiedade totalmente elevada, desde crianças, até idosos. A depressão, a síndrome do pânico foram as outras que mais tiveram elevação em sua incidência”. Quanto aos idosos, a psicóloga explica que o aumento de idosos ansiosos se dá devido a mudança brusca em suas rotinas, já que a maioria destes já tinham uma rotina específica para seu bem estar físico e mental, e também ao fato de que esse grupo foi o que mais precisou se isolar.

De acordo com a profissional os sintomas de um possível transtorno psicológico que podemos observar no outro são o isolamento por conta própria, quando alguém se afasta de seu grupo ou família, pessoas que deixam de atender o celular, que não respondem mais tanto no WhatsApp e que estão sempre indispostas sem razões aparentes; a tristeza é outro fator que deve ser analisado, pessoas que costumam estar alegres, divertidas, engraçadas , e de repente estão quietas e deprimidas; a falta de apetite também é outro sintoma que deve ser assistido, tanto a falta dele, quanto a compulsão alimentar. “nós também podemos notar alguns sintomas mais peculiares em nós, como a sensação de “bolo” na garganta, que é uma sensação de ansiedade e a maioria das pessoas não percebem; a inquietação; pinicação e coceira nas extremidades e no couro cabeludo; oscilação na qualidade do sono, quando deixamos de dormir bem devido a insônia ou noites agitadas, ou até quando acontece o contrário, quando mesmo com um sono tranquilo, nós passamos o tempo todo cansados, desanimados, com vontade de ficar na cama”, explica ela.

Em momentos como este, onde a presença de males mentais é óbvia, é necessário que todas as pessoas zelem pela sua saúde mental tanto quanto cuidam de sua saúde física. A primeira recomendação da psicóloga Mariane é conhecer a si mesmo. “Nós precisamos nos conhecer pra ver o que está ocorrendo conosco, para entender que às vezes esta tristeza que eu tenho sentido não é normal, ou que essa ansiedade que eu venho sentido não faz parte da minha vida, que os tremores e sudoreses que eu venho sentido não são coisas normais para mim, deste modo eu preciso me conhecer para notar que esta situação que está fora do meu controle está me causando coisas que não são normais para mim”.

A seguir do autoconhecimento, ela aponta o ato de procurar ajuda, e muitas vezes quebrar em nós e na sociedade o “tabu” de que psicólogos e psiquiatras são para pessoas consideradas “doidas”.  “Num primeiro momento eu posso tentar resolver o que eu venho sentindo conversando com algum amigo ou familiar, alguém que eu confie. Caso isso não resolva meu problema, eu tenho que procurar um profissional”. E por último ela ressalta a extrema importância de manter nossos costumes e os hábitos de nossa rotina dentro de nossa normalidade. “E para a prevenção de um possível transtorno, é importante que nós tentemos manter alguns de nossos hábitos mesmo com a pandemia. Como ver nossos amigos de modo virtual, fazer atividades físicas de acordo com o permitido em locais abertos, porém mantendo todas as medidas restritivas recomendadas. E manter um tempo para nós também é essencial, fazendo coisas que nos fazem bem”.

A precaução pode começar antes mesmo de um possível sintoma, por isso jamais se esqueça que nós não estamos sozinhos, estamos passando por todo esse momento juntos. Neste momento fora do comum e intenso é completamente normal nos sentirmos tristes, assustados e/ou menos produtivos que o habitual. A pandemia e o distanciamento social geram diversas emoções que são difíceis de lidar. Novos sentimentos são esperados. Não se cobre para estar bem 100% do tempo. Não tente invalidar seus sentimentos e emoções, elas são importantes para o desenvolvimento de um ser humano e do jeito certo todos eles entrarão em um perfeito equilíbrio.

“Há quem diga que esse é o novo normal e que nós devemos nos adequar a ela. Porém isso não é comum, não é corriqueiro vermos tantas pessoas sofrendo, morrendo todos os dias. Então, nós precisamos nos adaptar por enquanto com as circunstâncias atuais, e se nós vermos que isso não passa, iremos ter que nos reinventar e criar novos hábitos que nos façam bem”, alegou a profissional.

*Reportagem publicada na 364ª edição do Jornal Agora