Mandaguari

"A soma dos nossos afetos"

Confira o artigo de Vera Prado, publicado na 307ª edição do Jornal Agora

O título do artigo copiei do blog da Fabíola Simões de Brito Lopes, “A soma de todos os afetos” que acabou se tornando um livro que nos mostra as vicissitudes da vida, de forma simples, causal, como ela é à la Nelson Rodrigues, entretanto menos visceral. Por que há certos temas que nos são tão singelos, que os sentimentos brotam facilmente. Há duas semanas fui surpreendida com uma notícia que me causou uma tempestade de comoção, de dor, de perda, de tristeza. Me organizei para um dia só pra mim, daqueles que a gente corta cabelo, faz podologia, depilação, enfim, um dia que todas nós criaturas, vaidosas que somos, amamos planejar e usufruir, só nos resta o susto da conta.

Recebi uma mensagem que transformaria minhas próximas horas, meus próximos dias, e o que sou agora. Por que não pensamos quase nunca que um abraço gostoso no mercado pode ser o último que trocaremos com quem amamos, de fato. Minha amiga partiu, não se despediu. Nossa última conversa foi pela tela, enviei um coração e escrevi, “aproveita a vida, amiga”. Na terça-feira, e na sexta pela manhã recebi a notícia, e o que me veio imediatamente à cabeça, que todas as vezes que nos encontrávamos, ela dizia “amiga, gosto tanto de você”. E tínhamos uma viagem marcada, caso saísse minha licença prêmio esse ano.

E o resto do dia foi terrível, e compartilhar a dor dos filhos, dos netos, da mãe, dos irmãos, nora, cunhados, em torno do que nos resta quando partimos, me fez refletir acerca do que tenho, do que sou, do que realmente vale a pena nessa jornada curta, dessa aventura chamada vida. E tive a certeza que não se trata do carro, da roupa, ou de qualquer bem que tenhamos por aqui, mas do afeto, do carinho, do abraço, das lembranças, das conversas. E um fato nesse momento triste, acalentou meu coração. As pessoas que conviveram com minha amiga querida, e que diziam “ah, você é a fulana, amiga da minha cunhada, da minha patroa, ela gostava de você, ela falava de você”.

Esses comentários encheram meu coração de alento e afeto, de nostalgia dos bate-papos até de madrugada às vezes quando ambas tínhamos um fusca branco. A vida melhorou para nós duas, por que começamos juntas, nos preparamos para o nosso primeiro concurso juntas, assumimos juntas, trabalhamos juntas por anos, à noite, e uma estendia a mão sempre que a outra precisava, sempre que nos encontrávamos, E a frase de Flaubert faz todo sentido: talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida. Por que há tantas coisas pra eu te contar, e ouvir de você, amiga, aquela sonora gargalhada que era sua marca. Obrigada, pelas partilhas, pelas risadas, pelas conversas, siga seu caminho de luz e brilhe lá em cima.