Mandaguari avança no planejamento de mobilidade urbana
Setor técnico intensifica estudos, revisa vias e prepara intervenções para organizar o trânsito e melhorar a segurança.
Mandaguari, como tantas cidades de porte médio no interior do Paraná, cresceu rápido demais para o tamanho de suas ruas.
O aumento da frota, impulsionado pela expansão do comércio, pelo crescimento populacional e pela facilidade de aquisição de veículos, fez o trânsito se tornar um dos principais temas urbanos da atualidade.
A cidade, que até poucos anos atrás ainda mantinha o ritmo pacato de interior, hoje convive com congestionamentos em horários de pico, disputas por vagas e comportamentos de risco no trânsito.
Segundo dados do Detran-PR, a frota local ultrapassa 30 mil veículos registrados, um número expressivo para um município com pouco mais de 36 mil habitantes.
Entre motos, carros, caminhonetes e caminhões, o espaço viário se tornou insuficiente e a ausência histórica de planejamento urbano aprofundou o problema.
Para entender todo esse contexto o Jornal Agora conversou com a arquiteta Giovanna Marzola, 23 anos, que hoje responde pelo Setor de Mobilidade Urbana da Prefeitura de Mandaguari.
Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Unicesumar em 2024, Giovanna não imaginava que, tão cedo, estaria à frente de um dos setores mais complexos da administração pública.
Sua trajetória começou na Secretaria de Mobilidade Urbana de Maringá (Semob), onde atuou por dois anos com projetos de sinalização, acessibilidade, ciclovias e controle semafórico.
Mas foi seu Trabalho de Conclusão de Curso, que propunha a requalificação da Avenida Amazonas, onde surgiu o convite para trabalhar na prefeitura. “Durante a apresentação, o projeto chamou a atenção de representantes da Prefeitura. Viram que eu falava da realidade que vivia todos os dias. Mandaguari precisava de alguém daqui, com conhecimento técnico e afeto pelo lugar”, lembra.
Desde então, Giovanna tem conduzido uma série de levantamentos e intervenções com o objetivo de reorganizar o trânsito e promover uma mobilidade urbana mais segura e funcional.
Principal via comercial e de circulação de Mandaguari, a Avenida Amazonas concentra boa parte do tráfego urbano, e também das queixas de motoristas e pedestres. A falta de sinalização adequada, o excesso de velocidade, a disputa por estacionamento e o grande fluxo de caminhões que cortam a cidade formam uma combinação perigosa.
Giovanna explica que o projeto de requalificação da avenida está em desenvolvimento e será executado com recursos do Detran Paraná. As ações previstas incluem:
- Implantação de vagas específicas para motocicletas nas esquinas, para melhorar a visibilidade e reduzir acidentes;
- Criação de pontos de carga e descarga delimitados por quadra, evitando que caminhões parem em locais aleatórios;
- Padronização da sinalização horizontal e vertical, corrigindo erros acumulados e adequando as vias às normas do Contran;
- Estudos para implantação de estacionamento rotativo, em formato ainda em análise;
- Revisão da geometria viária, com adequação de faixas, recuos e travessias elevadas.
“Nosso objetivo é organizar o trânsito, não punir o motorista. A cidade cresceu sem planejamento, então nosso trabalho é corrigir, ajustar e dar coerência ao espaço urbano. Tudo precisa de estudo técnico, nada é feito de forma aleatória”, afirma.
A arquiteta reconhece que o problema da mobilidade em Mandaguari não é apenas estrutural, mas também cultural. “A maior dificuldade é a falta de respeito às regras. Em Maringá, o trânsito é mais organizado, há mais prudência. Aqui, muitos ainda tratam a via pública como propriedade particular”, observa.
O excesso de velocidade e as manobras perigosas, especialmente de motociclistas, são apontados como principais fatores de risco. A ausência de fiscalização constante reforça o comportamento irregular. Embora existam leis municipais que restringem o trânsito de caminhões por horário, tonelagem e número de eixos, a norma raramente é cumprida.
“Temos legislação, mas não temos estrutura de fiscalização. O código existe, o problema é que falta quem o faça valer”, lamenta Giovanna.
Um dos projetos mais aguardados é a municipalização do trânsito, que permitirá a criação de uma Guarda Municipal com poder de autuação. Atualmente, o controle das vias ainda depende de convênios com a Polícia Militar e do apoio da Polícia Rodoviária Federal, o que limita a ação do município.
“Com a municipalização, poderemos fiscalizar, aplicar multas, educar e, principalmente, planejar com autonomia. É uma mudança de paradigma”, explica o arquiteto Rafael Rossetto, também integrante da equipe de Mobilidade Urbana.
A longo prazo, o plano é estruturar o setor com uma equipe permanente de engenharia, técnicos de trânsito e agentes de campo. “Mandaguari precisa de continuidade nas ações. Sem estrutura técnica, qualquer projeto se perde no tempo”, afirma Rafael.
Intervenções em andamento
Algumas obras pontuais já começaram a alterar a paisagem urbana. A Rua Padre Antônio Lock esquinas com as ruas João Ernesto Ferreira e a Lins de Vasconcelos receberam chicanas, estreitamentos na pista que obrigam o condutor a reduzir a velocidade.
As faixas elevadas estão sendo implantadas gradualmente em pontos estratégicos, especialmente próximos a escolas e áreas de grande circulação de pedestres.
Essas intervenções, explica Giovana, seguem estudos técnicos baseados em dados de tráfego e risco. “Cada medida tem uma justificativa. As chicanas, por exemplo, são usadas em locais onde o excesso de velocidade é constante. Já as faixas elevadas humanizam o espaço urbano, priorizando o pedestre.”
Nenhuma mudança de sentido, obra ou alteração viária é decidida de forma isolada.
As propostas passam pelo Conselho Municipal da Cidade, que reúne técnicos, representantes da sociedade civil, comerciantes e autoridades locais.
O colegiado avalia os impactos, discute alternativas e vota as intervenções. “É um processo lento, mas necessário. O trânsito é um tema que mexe com o cotidiano de todos. Por isso, as decisões precisam ser compartilhadas”, defende Giovana.
Entre as vias que podem sofrer alterações mais profundas estão a Rua João Ernesto Ferreira e a Rua Manoel Antunes Pereira, ambas com tráfego intenso e conflitos de direção. As mudanças estão sendo estudadas e dependem de simulações e audiências públicas.
Para além dos números, a mobilidade urbana é, segundo Giovana, uma questão de qualidade de vida. Uma cidade que privilegia o pedestre, o ciclista e o transporte público é uma cidade mais justa, mais segura e mais humana.
“Nosso foco é pensar Mandaguari para o futuro. Planejar calçadas acessíveis, ampliar ciclovias, melhorar travessias. É um trabalho que não se faz da noite para o dia, mas que precisa começar agora. Mobilidade é mais do que trânsito é o direito de ir e vir com dignidade”, afirma.
Mas, para ela, o primeiro passo já foi dado. “Mandaguari está mudando. E essa mudança precisa ser feita com técnica, com diálogo e com paciência. Nosso trabalho é esse, construir uma cidade onde o trânsito seja seguro, inteligente e humano.”
