Acaman transforma reciclagem em sustento e esperança para dezenas de famílias

Entre fardos de papelão, garrafas PET e latinhas prensadas, a rotina na Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Mandaguari (Acaman) revela muito mais do que o trabalho com resíduos. Ali o que se constrói diariamente é dignidade, geração de renda e impacto ambiental positivo para o município.

Criada com o propósito de organizar o trabalho de catadores de Mandaguari e dar melhores condições à atividade, a Acaman se consolidou ao longo dos anos como referência local na triagem e comercialização de materiais recicláveis. A associação atua diretamente na separação de resíduos coletados na cidade, contribuindo para reduzir o volume encaminhado ao aterro sanitário e promovendo a destinação correta de diversos tipos de materiais.

A criação da associação representou um divisor de águas para trabalhadores que antes atuavam de forma autônoma e sem estrutura adequada. A organização coletiva trouxe melhores condições de trabalho, maior poder de negociação na venda dos materiais e reconhecimento institucional. Desde então, a Acaman passou a integrar oficialmente o sistema de coleta seletiva, contribuindo diretamente para a destinação correta dos resíduos recicláveis.

A rotina começa cedo. Os materiais chegam ao barracão e passam por triagem manual. Papel, plástico, vidro e metal são separados, prensados e posteriormente vendidos. Cada etapa exige atenção, esforço físico e organização. O trabalho é coletivo: todos colaboram para que o processo funcione de maneira eficiente.

A presidente da associação, Ruth Izabel da Silva, que trabalha há nove anos na Acaman, destacou que, apesar das dificuldades, o grupo segue firme. “A vida aqui não é fácil”, resumiu ao falar sobre a realidade enfrentada pelos trabalhadores. Muitos dependem exclusivamente da renda obtida com a reciclagem. Outros são aposentados que precisam complementar o salário mínimo para conseguir pagar despesas básicas como aluguel, água e gás.

Segundo ela, há integrantes mais velhos que continuam atuando mesmo com limitações físicas. “Tem uns que já não estão mais aguentando, mas estão tentando trabalhar”, afirmou. A fala evidencia o cenário de vulnerabilidade social enfrentado por parte dos associados, que encontram na Acaman uma oportunidade de manter a autonomia financeira.

A questão econômica é um dos principais desafios da associação. A renda varia conforme o volume e o valor de mercado dos materiais recicláveis. Em períodos de baixa nos preços, o impacto é sentido diretamente no bolso dos trabalhadores. Ainda assim, a associação mantém suas atividades e busca alternativas para fortalecer a estrutura.

Outro ponto abordado foi a expectativa por melhorias estruturais, incluindo a viabilização de um novo barracão. A ampliação do espaço é vista como fundamental para melhorar as condições de trabalho, aumentar a capacidade de armazenamento e garantir mais segurança aos associados. Já que o barracão é pequeno, não possui condições necessárias para o trabalho e não é um lugar adequado e equipado para as necessidades básicas dos trabalhadores.

No dia 6 de fevereiro de 2023, há três anos atrás, a Acaman sofreu um incêndio de grandes proporções e todas as máquinas da associação foram destruídas pelas chamas. A associação realizou uma campanha solidária para se reerguer e não deixar seus 27 funcionários, que dependem da Acaman, na mão. Dois meses depois eles foram alvo de furto e diversos equipamentos e ferramentas de trabalho foram furtadas.

Diante disso, a Acaman recebeu recursos e verbas parlamentares. A principal foi do deputado estadual Arilson Chiorato (PT) que, em janeiro de 2024, destinou R$ 3,6 milhões com investimentos da Itaipu Binacional e do Governo Federal. Esses recursos contemplam a construção de um novo barracão, 2 caminhões baú, balança, empilhadeira, esteira de elevação, esteira de separação, prensa horizontal, 36 meses de assistência técnica, sacos ráfia e uniformes. Tudo para dar mais dignidade e facilidade ao trabalho dos catadores, porém a construção do barracão ainda é uma realidade distante.

Em 2025 a Acaman foi contemplada com dois caminhões, equipamentos de trabalho e uniformes novos. Os recursos financeiros chegaram à conta do município e estão disponíveis para utilizar desde dezembro de 2023, porém pararam por aí. A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da prefeitura, que informou ainda estar realizando o projeto do barracão e que, após isso, ele ainda teria que passar pela aprovação na união. O problema é que esse recurso irá se expirar em novembro deste ano e, se não utilizado até este prazo, será perdido e devolvido. Agora a Acaman depende do município para realizar o grande sonho do novo barracão.

Mesmo diante das dificuldades, a Acaman mantém seu compromisso com o município. Ao retirar toneladas de resíduos do fluxo convencional de lixo, a associação contribui para reduzir a sobrecarga no aterro sanitário e promover a sustentabilidade. O trabalho dos catadores integra a chamada economia circular, permitindo que materiais retornem à cadeia produtiva.

Além deste problema também há o descarte irregular de lixo por parte da população, que ainda insiste em não respeitar o trabalho dos catadores. Quando materiais recicláveis são misturados com resíduos orgânicos ou rejeitos, o trabalho se torna mais difícil e menos produtivo. Além de comprometer a renda, o descarte incorreto pode oferecer riscos à saúde dos trabalhadores.

A Acaman é responsável por recolher papelão, vidro, sacos de ráfia, metais e sucatas, PVC, papel, óleo de cozinha e eletrônicos em geral. O que a associação não recolhe é lâmpadas, pilhas e baterias de carro, isopor, papel higiênico, fralda e absorventes, remédios vencidos e perfurocortantes, entulhos, roupas e sapatos, móveis e lenha e sobras de comida. É importante a população ter conscientização e separar o lixo corretamente para que seja feito o seu descarte.

A dimensão social, no entanto, é tão relevante quanto a ambiental. Para muitos associados, o espaço representa mais do que um local de trabalho. É um ambiente de convivência, apoio e construção coletiva, que ajuda no sustento de diversas famílias de Mandaguari.

Mesmo diante dos obstáculos, a Acaman segue desempenhando papel ambiental estratégico. A separação correta dos recicláveis contribui para a preservação dos recursos naturais e diminui os impactos ambientais. O trabalho da associação integra a cadeia da economia circular, permitindo que materiais retornem ao ciclo produtivo. Os dias e locais onde os caminhões passam diariamente recolhendo os recicláveis está disponível no instagram da Acaman, assim como toda a história da associação.

A história da Acaman se funde com a trajetória de superação de seus integrantes. Entre tantos desafios estruturais, oscilações financeiras e limitações físicas, a associação permanece como alternativa concreta de geração de renda, inclusão social e respeito ao meio ambiente.

Mais do que números e volumes reciclados, a Acaman carrega histórias de vida marcadas pela luta diária. Entre o barulho das prensas e o movimento constante no barracão, o que se vê é um esforço coletivo para transformar resíduos em oportunidade.

Em meio aos fardos prensados e à rotina intensa de separação, a Acaman reafirma diariamente seu papel na cidade: transformar o que seria descartado em oportunidade e mostrar que, por trás de cada material reciclado, existe uma história de esforço e resistência.