Um país guiado por curtidas ou transformações?

A recente declaração do presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, ao afirmar que a influenciadora Virginia Fonseca seria a mulher mais relevante do Brasil na atualidade, provocou um debate que vai além de nomes, pessoas ou preferências individuais. A controvérsia escancarou uma pergunta incômoda: o que significa ser relevante no Brasil de hoje?

Em um tempo em que números são visíveis, mensuráveis e monetizáveis, seguidores e engajamento tornaram-se sinônimos de importância pública. A lógica das redes sociais transformou audiência em capital simbólico e, muitas vezes, em autoridade. No entanto, esse critério reduz a complexidade da contribuição social a métricas que privilegiam o que é viral, imediato e lucrativo.

Paralelamente, existem trajetórias que produzem impactos silenciosos, porém profundos. É o caso da pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujos estudos sobre regeneração do sistema nervoso podem, no futuro, representar avanços significativos no tratamento de lesões medulares. Trata-se de uma contribuição que não gera trends, não vende produtos, mas tem potencial para transformar vidas de maneira estrutural e duradoura.

O contraste entre essas duas realidades revela uma característica do nosso tempo: a visibilidade é instantânea, enquanto a transformação é lenta e invisível. A sociedade que mede relevância apenas pelo alcance digital corre o risco de ignorar aqueles que constroem soluções para problemas reais, longe dos holofotes.
É importante reconhecer que influência digital não é, por si só, algo menor. Comunicar, mobilizar e inspirar milhões de pessoas também é uma forma de poder social. O problema surge quando essa dimensão se torna o único parâmetro de importância.

A própria Virginia Fonseca, ao se manifestar sobre a polêmica, reconheceu que não se considera a mulher mais influente na pauta levantada, destacando o trabalho de profissionais que impactam diretamente a vida das pessoas. Sua fala trouxe equilíbrio a um debate que, nas redes, rapidamente se tornou polarizado.

No fim, a discussão não é sobre quem merece o título de mais relevante, mas sobre quem escolhemos enxergar como referência. Uma sociedade que celebra apenas quem aparece na tela talvez esteja deixando de reconhecer quem trabalha para mudar a realidade fora dela.

A pergunta que permanece é simples e incômoda: queremos ser um país guiado por curtidas ou por transformações?