Modernização que chega sem debate
A implantação do sistema de pedágio free flow no trecho entre Mandaguari e Marialva chega cercada de discursos sobre modernização, fluidez e eficiência. Tecnicamente, não há como negar os avanços do modelo, já adotado em outros estados e países. O problema é que, por aqui, a tecnologia chega antes do debate e quando o diálogo é empurrado para depois, quase sempre sobra pouco espaço para decisões realmente justas.
A discussão sobre como será feita a cobrança para os moradores da cidade e, principalmente, para os moradores lindeiros deveria ter ocorrido há muito tempo, ainda na fase de concessão e definição do modelo. Não ocorreu. Agora, com pórticos sendo instalados e a operação se aproximando, a população corre atrás de respostas básicas: quem vai pagar, quanto vai pagar e com que frequência. Para quem atravessa o trecho diariamente para trabalhar, estudar ou acessar serviços, o free flow deixa de ser apenas um conceito técnico e passa a ser uma preocupação concreta no orçamento mensal.
A situação dos moradores lindeiros é ainda mais sensível. São pessoas que vivem às margens da rodovia, utilizam acessos rurais, estradas vicinais e entradas próximas apenas para chegar às próprias casas ou propriedades. No sistema tradicional, o pedágio já era um incômodo; no modelo eletrônico, a cobrança se torna constante, automática e silenciosa. Cada passagem vira um registro, cada deslocamento curto pode virar custo acumulado. Sem regras claras de isenção ou tarifas diferenciadas, o risco é transformar o direito de ir e vir em uma conta recorrente.
O que se desenha, infelizmente, é um cenário em que a população local terá de “brigar por migalhas” junto à concessionária EPR: descontos pontuais, exceções limitadas, ajustes mínimos. Não se trata de rejeitar a modernização, mas de questionar o modo como ela está sendo imposta, com decisões praticamente consolidadas e pouco espaço para negociação real. Quando o debate chega tarde, a margem de manobra é pequena e quem paga o preço, quase sempre, é quem mora no entorno.
O free flow pode representar avanço para a infraestrutura rodoviária, mas não pode ignorar a realidade social e econômica de Mandaguari e Marialva. Transparência, diálogo efetivo e regras específicas para moradores locais não são favores, são obrigações. A modernização só faz sentido quando acompanha justiça. Sem isso, o pedágio eletrônico corre o risco de ser lembrado não como progresso, mas como mais um custo imposto sem escuta.
