Amor que se inverte: a jornada de filhas que se tornaram cuidadoras dos pais
Confira duas histórias de filhas que largaram tudo para retribuir o amor há quem sempre esteve com elas
Durante a infância, são os pais que guiam os primeiros passos, ensinam a falar, caminhar, atravessar a rua. Com o tempo, porém, a vida impõe um novo ciclo, e os papéis se invertem. São os filhos que passam a cuidar dos pais, muitas vezes enfrentando dificuldades físicas, emocionais e financeiras. Em Mandaguari, a história de José Antonioli Corsini da Costa, de 83 anos, e José da Conceição Cidade, de 83 anos, é um exemplo tocante de como o amor familiar pode vencer os maiores desafios.
José Antonioli Corsini da Costa, morador da Popular II, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) há alguns meses e, desde então, precisa de cuidados constantes. Quem assumiu essa responsabilidade foi a filha Maria Aparecida da Costa, de 51 anos, que adaptou sua rotina, voltou a morar com os pais e até suas prioridades para cuidar e acompanhar de perto a recuperação do pai. Ela mora com o pai e a mãe, Laura Corsini da Costa, de 76 anos, e seu irmão, Julio Cezar de Souza, que é caminhoneiro, mora com a esposa em outra cidade. Pela família ser pequena, só ela cuida do pai.
Ela revela como esse papel de cuidadora se tornou uma missão de amor e gratidão por tudo que seu pai foi e é para ela. “Eu chego do serviço e já vou direto ver ele, ajeitar a comida, ver se está tudo certo. Não tem mais aquela rotina de descansar. Cada dia é uma coisa nova: médico, fisioterapia, ir ao banco resolver as coisas, buscar remédio e fazer a feira. Ele fazia tudo antes, agora sou eu que faço”, relatou.
Ela aprendeu, na prática, a lidar com remédios, curativos, alimentação especial e, principalmente, com a paciência. “Ele fazia tudo sozinho. Hoje, precisa de mim até para levantar da cama”, conta emocionada.
A rotina, no entanto, não é fácil. Além do desgaste físico, há também a sobrecarga emocional e financeira. “O SUS demora meses para marcar uma consulta. Tem remédio, fralda, alimentação especial, transporte… tudo isso pesa. Mas o que eu posso fazer, eu faço”, desabafa Maria. Ela lembra com dor das noites em claro: “Teve uma vez que fiquei 42 horas acordada. Ele gritava muito, eu só chorava. Mesmo assim, não cogitei desistir. Sou eu e Deus revezando”.
Em meio às dificuldades, há também conquistas emocionantes. Maria conta com os olhos marejados do dia em que o pai, com muito esforço, conseguiu dar um passo. “Abri a boca a chorar. Foi uma vitória”.
No final da entrevista, José Antonioli se emocionou e disse ser muito grato por ter sua filha e sua família: “Me sinto muito abençoado, agradeço a Deus por tudo e minha família”.
A história de José da Conceição Cidade, de 83 anos, morador do Jardim Boa Vista, e de suas filhas Maria Claudenir Cidade, de 55 anos, e Cláudia Elizabeth da Silva Cidade, de 56 anos, é parecida. José tem desgaste nos joelhos e não consegue mais andar e não enxerga mais porque tem glaucoma. Maria Claudenir cuida do pai já fazem 10 anos, mas antes disso cuidou de um tio, que era deficiente, e de sua mãe, que veio a falecer alguns anos atrás.
Na casa moram somente ela e o pai, sua irmã Cláudia trabalha fora e sempre que possível ajuda na rotina. “Ela era casada, porém o marido dela não entendia o amor pelos nossos pais e ele pediu para ela escolher entre ele ou os nossos pais, ela escolheu nossos pais. Por isso que eu queria muito homenagear a minha irmã, eu até me emociono porque eu não tenho o pique que minha irmã tem para cuidar dele. Ela tem esse carinho, esse amor, calma e cuidado”.
“Eu venho na hora que precisa, eu o ajudo em alguma outra coisa. Eu ficava com meu pai no final de ano para a Maria ir ver a filha dela em Cornélio Procópio. Só que agora ela não tem como sair mais porque meu pai não anda mais. Eu não fico muito com meu pai porque eu trabalho o dia inteiro, mas também não consigo porque eu me preocupo muito e sofro junto com ele. Eu me apavoro, eu choro junto, eu fico nervosa, então a minha irmã nasceu pra cuidar dele mesmo”. relatou ela.
Para Maria, cuidar do pai é uma satisfação, um modo de retribuir todo o carinho e cuidado que ele teve com ela. “Ele me pergunta se está dando trabalho para mim e eu falo ‘Pai, eu quero que o senhor me dê esse trabalho’ e se fosse para fazer tudo de novo eu faria”.
José sempre foi a base da família. Trabalhou por toda a vida, educou as filhas com firmeza e afeto e criou também os netos, que hoje o reverenciam com orgulho. “Ele nunca deixou faltar nada pra gente. Trabalhava duro, fazia de tudo pra nos dar uma vida digna. Agora é nossa vez de retribuir”, dizem Cláudia e Maria.
Durante todos esses anos, José trabalhou em diversos empregos para sustentar a família. “Lembro que o lanche que ele ganhava a noite trabalhando na Cocari à noite, ele passava a noite inteira sem comer nada pra trazer o lanche pra gente comer. Trabalhou no Garcia por muitos anos vendendo passagem, acordava às 3h da manhã, fazia o café, levava para nós na cama antes de ir trabalhar. Quando éramos adolescentes, ele levava a gente nos bailes até lá na porta, marcava um horário e ele ia buscar a gente. Ele não privou a gente de nada. Brincava de esconde-esconde com a gente, naquela descida do laticínio brincava de queimada, corria atrás da bola e até carrinho de rolemã ele fez pra gente. Ele foi um pai muito presente”, elas relembram nostálgicas.
Maria conta também que durante este período cuidando de seus pais desenvolveu alguns problemas de saúde, mas não se arrepende de sua decisão. “Mas graças a Deus, com dor e tudo, eu faço tudo muito contente, muito feliz e não me arrependo de nada, nada que eu larguei pra trás pra cuidar da mãe e do pai porque os pais cuidam da gente. E meu pai foi muito bom pra nós”.
As irmãs também falam sobre o desejo de eternizar a história do pai, que vive em Mandaguari desde 1942, quando chegou aqui aos 5 anos vindo do Rio de Janeiro, e é conhecido por gerações. “Ele já era chamado de vô pelas crianças que ele levava pra escola. Queremos que o nome dele esteja em uma rua da cidade. É o mínimo por tudo que ele representa pra nós e pra comunidade. Quem conhece meu pai, o homem que trabalhou por muitos anos no Garcia, sabe como ele é, um exemplo pra todos aqui no bairro”.
Perguntadas sobre o que ele representa para elas, elas responderam: “Tudo, ele significa tudo. Meu pai é meu herói e se fosse pra eu nascer de novo, eu queria o mesmo pai e a mesma mãe”.
Histórias como essas não são raras, mas merecem ser contadas. Em um país que envelhece rapidamente, a figura do cuidador familiar ganha destaque e revela o quanto o afeto, o compromisso e a gratidão podem transformar a velhice em um tempo de reencontro.
Essas mulheres representam milhares de brasileiros que assumem, sozinhos ou em família, a missão de cuidar de pais debilitados. São histórias que misturam amor e renúncia.
“Meu pai é minha referência. Ele foi pai e mãe, amigo, conselheiro, o exemplo de homem que a gente quer encontrar por aí. Cuidar dele é difícil, mas também é um privilégio. Eu amo meu pai”, conclui Maria Cidade.
“Eu não me importo de cuidar dele, desde que ele fique ali e esteja comigo. Enquanto eu puder e tiver forças irei cuidar dele, só peço saúde pra Deus pra mim fazer o melhor pra ele. Meu pai é tudo pra mim, é a minha vida. Quem tem pai valorize e cuide, as pessoas têm que ter mais amor e empatia pelo outro”, finalizou Maria Aparecida.
As duas histórias se cruzam em um ponto comum: o amor incondicional. Em meio ao cansaço físico e ao impacto financeiro, essas filhas seguem firmes, sustentadas por memórias, gratidão e afeto. “Ele me criou com dignidade. Agora é minha vez de cuidar dele”, resume Cláudia. “Ele me deu tudo que tinha. Agora eu dou o que posso”, completa Maria Cidade. “Se fosse preciso, faria tudo de novo”, garante Maria Aparecida.
Cuidar de um pai ou mãe doente exige coragem. Mais do que um ato de responsabilidade, é um gesto de amor silencioso, cotidiano e imenso.
