Quando a violência deixa de ser invisível

A morte do cachorro comunitário Orelha, em Santa Catarina, ultrapassou rapidamente os limites de um caso local e se transformou em um episódio de repercussão nacional. Conhecido pelos moradores da região onde vivia, o animal era cuidado de forma coletiva e fazia parte da rotina da comunidade. O episódio de violência que resultou em sua morte provocou protestos, manifestações públicas e intensa mobilização nas redes sociais.

Após o caso ganhar visibilidade, denúncias de outros episódios de violência, tanto contra animais, passaram a ocupar espaço nos noticiários e nas redes. Casos que antes circulavam de forma restrita, muitas vezes limitados a boletins de ocorrência ou a publicações isoladas, passaram a ser retomados, investigados e debatidos. A comoção inicial funcionou como um gatilho, trouxe à tona uma violência cotidiana que, até então, permanecia diluída na indiferença ou na naturalização do absurdo.

A repercussão reacendeu discussões sobre responsabilização penal, efetividade das leis de proteção animal e o papel do Estado na prevenção de atos violentos, sobretudo quando envolvem jovens. Também evidenciou um padrão recorrente, a seletividade da atenção social. Episódios de crueldade ocorrem com frequência, mas apenas alguns rompem a barreira do silêncio e alcançam mobilização ampla. O caso Orelha escancarou esse filtro invisível que decide quais violências merecem indignação coletiva e quais seguem ignoradas.

Nesse contexto, o episódio remete inevitavelmente a casos históricos de violência extrema, como o assassinato do indígena Galdino Jesus dos Santos, ocorrido em Brasília, em 1997. Embora distintos em natureza e gravidade, os casos compartilham um ponto de convergência inquietante, em ambos, os autores pertenciam a grupos socialmente privilegiados, e a reação social só ganhou força quando o limite da indiferença foi ultrapassado. A comparação não equaliza as tragédias, mas ajuda a compreender como a sociedade reage tardiamente diante da barbárie.

O efeito dominó provocado pelo caso Orelha também revelou algo mais amplo, a fragilidade dos mecanismos de prevenção e punição. A multiplicação de denúncias após a repercussão indica que a violência não aumentou repentinamente; ela apenas passou a ser vista. Esse deslocamento do invisível para o visível expõe falhas estruturais na fiscalização, na educação e na capacidade do poder público de agir antes que a tragédia aconteça.

Mais do que um episódio isolado, o caso Orelha se consolidou como símbolo de uma discussão maior sobre violência, limites sociais e responsabilidade coletiva. A mobilização popular expressa uma demanda por respostas mais firmes, mas também por um debate duradouro sobre empatia, educação e o valor que a sociedade atribui à vida, humana ou animal. O risco, como sempre, é que a indignação seja breve e o esquecimento volte a ocupar seu lugar. O desafio colocado pelo caso é justamente este: transformar comoção em mudança concreta, antes que a próxima violência precise, novamente, romper o silêncio para ser reconhecida.