TESTE HORIZONTAL

"Sobre o frigir dos ovos, o andar da carroça e o exercício da esperança"

Confira o artigo escrito pela Débora Maria Borba e publicado na 285ª edição do Jornal Agora
por Débora Maria Borba, especial para o Jornal Agora em 01/12/2019

Quando chega dezembro, parece que aquele restinho de areia na ampulheta do tempo anual quer correr mais rápido e deixa as pessoas boquiabertas, sem saber explicar: como foi que já se passaram todos os meses desse ano que parece que começou ontem? Além dessa conversa clichê que surge na boca de quase todos os brasileiros médios, também é momento de expressar os infindos desejos de feliz natal e próspero ano novo. A temporada de confraternizações, amigos-secretos, apresentações escolares e tentativas (quase sempre frustradas) de conclusão de projetos está em alta. Mas o sentido religioso que a tudo e a todos alcança em um bom país cristão deve oferecer suas contribuições. Como católica bastante dedicada à teologia que fui, aprendi que as três virtudes teologais que devem nortear a vida cristã são a fé, a esperança e a caridade, pois acredito que em tempos de finalização de um ano e início de outro devemos nos apegar à segunda delas, a esperança. Sempre cai bem espiar a definição que nos apresenta o dicionário sobre os vocábulos e as três primeiras do Michaelis online, sobre a esperança, dizem o seguinte: 1) Ato de esperar aquilo que se deseja obter. 2) Expectativa na aquisição de um bem que se deseja. 3) Aquilo que se espera, desejando. A partir daí vislumbra-se que a invenção da esperança para cada final de ano é útil nessa eterna tentativa humana de encerrar ciclos para abrir outros novos.

A convenção do ano civil terminar dia 31 de dezembro e, no Brasil, o 1º de janeiro estar associado a tantas mudanças nos leva a carregar culturalmente este desejo de esperar por algo novo e diferente a cada final de ano. Mas, o que realmente podemos esperar? Seria a espera um exercício livre e aberto, do tipo que nos faz sentar e aguardar até que algo mágico e/ou milagroso aconteça? Ou estaria mais relacionado a esperar pelo movimento do cosmos e os ajustes estelares que anunciariam novos tempos? Afinal de contas, o quê e para quê se espera? Seriam nossas esperas um exercício da negação do desespero?

As respostas não são exatas, mas podem ser buscadas em diferentes lugares. Apreciadora da cultura popular e da literatura em geral, vou vasculhar algo por estas veredas. Geraldo Vandré (1935), na sua visceral “Para não dizer que não falei das flores” repete a cada estribilho que “esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. É possível que ele aponte para uma primeira possibilidade, de que a espera não é mágica e que ela em si, talvez, seja um equívoco, que o novo nasce da ação. Essa maneira de pensar e de se posicionar conduz a uma possibilidade de interpretar a espera como um oposto do estar parado e uma aproximação ao movimento em direção àquilo que se quer. Essa lição é uma das mais difíceis de se aprender, mas houve um outro mestre sobre ela.

O grande escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) criou uma metáfora para explicar a utopia que serve de paralelo para compreensão da esperança. Ele afirma que a utopia é como a linha do horizonte, que está sempre à nossa frente. Sempre que caminhamos, ela se coloca um pouco além e assim nós caminhamos continuamente, sempre nos aproximando dela – em razão do movimento – mas nunca alcançando-a – pela mesma razão. Ou seja, é nosso movimento que conduz à utopia e a palavra já carrega em si a explicação: “u” é negação e “topos” é lugar; utopia é o não lugar, essa busca contínua, essa construção que nunca tem fim.

Nosso escritor mais genial e estudado, Machado de Assis (1839-1908) também se manifestou sobre a esperança e seus desdobramentos. Em alguns de seus contos o vemos como um crítico da mesma. Mas, para um autor que sempre ofereceu uma literatura que nos coloca no fio da navalha em relação às posições fixas e duais, que sempre questiona e nos convida a refletir sobre os dois lados de todas as moedas da vida, pensar numa resposta fechada e definitiva também é duvidoso. Exemplifico: no conto “Noite de Almirante”, o protagonista Deolindo Venta-Grande, mesmo depois de abandonado por sua amada e na certeza de ela já estar vivendo com outro, se deixa levar uns instantes pelo “demônio da esperança”. Ele, através da razão, sabe que não sairá mais nenhum coelho daquela moita, mas pelo lado emocional, quer se agarrar a um fio de esperança de que o jeito amigável de ter sido recebido pela ex-namorada contém uma possibilidade, ainda que remota, de voltar a ficar com ela. Sem querer estragar a surpresa de quem ainda não conhece esta maravilhosa obra literária, apenas digo que a esperança não vingou, mas que é parte importante do seguimento do protagonista vida afora. Já o Conselheiro, narrador do conto “A desejada das gentes” se lamenta dos estragos causados pela esperança que ele nutria de algum dia conquistar o amor de Quintília: “a culpa foi da esperança, que é uma planta daninha, que me comeu o lugar de outras plantas melhores” e ainda “o demônio da esperança veio pousar outra vez no meu coração; e, sem nada exprimir, cuidei que um dia, um dia tarde, ela viesse a casar comigo”. Os excertos são autoexplicativos e me contenho em dizer que a esperança deste vingou, mas o resultado é mais surpreendente que no conto anterior. Quem leu, sabe. Quem ler, saberá.

Mas onde se pode chegar com tudo isso afinal? (Estou me perguntando a mesma coisa desde o dia que aceitei escrever este texto). A sabedoria popular, que sempre oferece ocorrências geniais (vox populi, vox Dei) e que no meu caso conta com o elemento materno como fonte quase inesgotável de recomendações, consolo, estímulo ou acalanto me ensinou desde cedo que é no frigir dos ovos e no andar da carroça que as coisas se ajeitam. Isso porque não se pode contar com os ovos no fiofó (essa palavra pode?) da galinha, ou seja, nada está definido ou certo antes que aconteça. Os ingleses dizem “don’t put all your eggs in one basket”, algo que traduzido ficaria como “não ponha todos os ovos numa única cesta”, a ideia de não aplicar todo o esforço em uma coisa só, de não acreditar demais num único elemento. Entre ovos no interior (galinha) e ovos no exterior (cesta) a insegurança se mantém. Quando então poderemos ter os ovos de forma mais segura? Quando eles estão na frigideira. É no frigir dos ovos que as coisas se ajeitam, é lá que já vislumbramos algo que lembra comida de verdade, é lá que os ovos se rompem por um propósito. Com a carroça e seu andar é igual: às vezes a carga é grande, pesada e desajeitada, mas quando a carroça começa a se movimentar e balançar um pouco, as abóboras (ou seja lá qual for a carga – minha mãe sempre menciona as abóboras) vão se ajeitando e, mesmo grandes e pesadas, graças ao movimento e à gravidade, encontram um lugar que parece mais ajustado.

O exercício da esperança seria algo assim, esperar pelo melhor e preparar-se para o pior. Não se abandonar ao desespero, mas também não se iludir. Acreditar em si mesmo e tentar, mesmo que com tantas dificuldades, acreditar nos outros, porque quando acreditamos, estamos fazendo nossa parte. Se o outro ou outra não cumpre com sua parte, o problema já não é de quem acreditou, mas de quem não mereceu o crédito que lhe demos. O exercício da esperança passa pelos valores cristãos também e o que viveu Maria, José e Jesus é uma grande lição que devemos aprender e reaprender a cada dia, não apenas a cada natal. Relembrando nossas dificuldades pessoais, mas principalmente as dificuldades sofridas por tanta gente país afora. Talvez o maior exercício de esperança seja ser capaz de trazer um pouquinho de esperança para aqueles que já a perderam. Se o natal é a festa da luz, talvez seja o momento perfeito para tentar ser luz na vida de alguém. Talvez, se pudéssemos ignorar um pouco os apelos comerciais que gritam aos nossos ouvidos e estimulam todos os demais sentidos de nossos corpos dizendo o quanto temos que comprar, mostrar, preparar, decorar, presentear, cozinhar, ostentar e ao invés disso fôssemos capazes de oferecer de nós mesmos, de doar, de dividir, de reunir sem pensar tanto nos atributos materiais, talvez, e só talvez, pudéssemos desejar feliz natal de verdade.

O exercício da esperança é individual, mas quando bem realizado, surte efeitos coletivos. Em tempos de falta de esperança e de um quase desespero, vale a pena olhar para dentro, buscar os bons valores que compõem nossa essência e tentar transmitir a luz que somos capazes de engendrar e propagar. Se não fazemos acontecer ou não caminhamos rumo à utopia, não existe esperança. O tempo é pesado, eu sei, mas o demônio da esperança ainda tem lugar.

 

Débora Maria Borba é mandaguariense de nascimento e criação. Do mundo por decisão. Professora de Português, Inglês e Espanhol. Graduada e mestre em Letras pela UEM. Doutoranda em Literatura pela Purdue University, EUA.

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