TESTE HORIZONTAL

"Tio Zózimo: Retratos da vida"

Leia a crônica escrita pelo professor Donizeti Donha e publicada na 266ª edição do Jornal Agora
por Donizeti Donha, especial para o Jornal Agora em 19/08/2018

Foi no decorrer, de tanto correr atrás do tempo, que Tio Zózimo garrou reformar sua Kombi amarela. Conforme pintavam os trocados do dia a dia. Primeiro, uma pintura nova. No outro mês, pneus com faixas brancas na lateral. Mais pra frente, cochonilho nos bancos. Enfeites de rendinha no para-brisa.  Banho perfumado de shampoo.  Um brinco.  Rebites brilhavam. Alumínios ao sol.

Nada lembrava aquela Kombi acabadinha adquirida de seu Guima, da Estrada Alegre.

Tão bonita estava que toda tarde ou manhã, flanela na lataria e pinceladas nas borrachas dos pneus. De longe, poder ler Pirelli.

Estava nestas condições. A Kombi era de Tio Zózimo ou Tio Zózimo era da Kombi? Um cuidava do outro? A cada novo detalhe reformado, estacionavam na Praça. Colhiam olhares. Tio Zózimo dava dez passos, olhar de longe se ficou bom.

Na Rua Piquiri, desfilavam entre as vendas. Começavam na Máquina Paulista. Casa do Povo. Casa Oliveira. Casa Devechi. Até o Empório Catugi. A Kombi amarela. Macia. Renovada. Tio Zózimo empolgado.

Pela Rua Renne Táccolla. Venda do Seo Basílio. Casa Nunes. Empório Império. Liberal. Ia até a Venda do Gaé. Casa Cruzeiro. Lameira de borracha com distintivo do time do coração. Balançando.

Os olhares. As entregas. A vida ensolarada. A Kombi renovada.  A existência, o trilho.

Vai que um dia, soube. Decúbito. O Hio Bila, playboy da motocicleta, tinha batido uma chapa, uma fotografia. Com a noiva. Moça de fora. Ao lado da Kombi. De tão bonita, a foto. Mandara fazer um quadro.

Tio Zózimo sentiu. Roubada a alma da sua Kombi. Tirada a essência? O playboy se apossava? Ninguém mais queria ver a Kombi. Queriam era ver o retrato, em quadro. Com a moça. Diziam que lindo. Pendurado na parede da sala. Ela, o playboy, a noiva.

Pelas ruas e estradas, em segundo plano. Até na Venda do Vico, perguntavam era pelo retrato. Tio Zózimo sentia o dissabor, a ausência, o não-ser-das-coisas.

Planejou visitar Hio Bila. Pedir o quadro. Recuperar a alma da sua Kombi. Foi. Na sala, vendo o quadro. A Kombi. A noiva, linda. De fora.

Hio Bila disse que não podia. A moça, o coração. Entendia o pedido, mas não atenderia.

Desacorçoado, ao volante. Rumava. Torturado. Para desanuviar, refugiava-se em outras histórias sobre fotografias.

Marina, alegria e equilíbrio, inventara de inventar enviar uma carta para os Beatles.  Onda já se viu? Foi a primeira reação. Abuso e fruto das comunicações. O mundo estava perdido? Era Dona Nicolinha quem dizia.

A carta para as estranjas. Nunca que ia. Nunca que viria. Chacotas não tiravam Marina do seu olhar sorridente. Os bimestres correndo. Na escola. Na Rua de Baixo. Na Rua de Cima. Zoavam. Perguntavam da carta. Do Papai Noel. Do disco-voador. Fazia-se de desentendida, só ria e dançava na corda bamba, para manter as amizades. Um dia, quem sabe?

O dia, finalmente. O carteiro. Um envelope de outras cores entre as correspondências. Surpresa e sorridente, Marina o abriu. Uma foto dos quatro rapazes de Liverpool. Com assinaturas de John, Paul, Ringo e George.

Assinada. Carimbada. Pluft, plaft, zuum.

Sem caráter de vingança, mostrou a todos. Todos viram. Certificaram. De ver ninguém se cansava. Marina não ridicava, não. A foto passava, mão em mão. Até levavam para casa. Para as famílias verem.

 Tanto ir e vir, Marina se esqueceu da foto. Lembrou-se muitos dias depois. Não queria averiguar quem. Não ferir amizades. Guardou-se. Tanta gente tinha visto. Não havia pistas de quem o último era. Sentida? Equilibrada?

Tio Zózimo e Altamiro até que fizeram uma investigação com os colegas, mas, por falta de técnica, tática e lupa deixaram por donde. De lado. Pensaram em fazer um curso de detetive por correspondência, porém, largaram mão. Esqueceram a foto dos Beatles da Marina.

 Nisso tudo se passaram uns quinze dias ou mais. Tio Zózimo amuado, cabisbaixo, meditabundo, quieto. Quando foi, quando não foi, chegou a encomenda de levar uns livros usados. Doados. Curioso. Desfolhou o Cazuza, o Robinson Crusoé, Meu pé de laranja lima, Cartilha Caminho Suave. Sagarana. Já ia abrindo o Dom Quixote quando caiu, melhor voou. Era a foto dos Beatles da Marina.

Há quanto tempo estava ali perdida? Guardada? Até os Beatles nem não existiam mais.  Orgulhoso, inspirado, nem terminou o frete. Deixou para depois. Mais urgente, achou, era levar a foto para Marina. Sorrisos e equilíbrio.

Faltando duas quadras para a casa dela. Tio Patinhas. Um motoqueiro fechou a Kombi. Freada de assustar os passarinhos nas árvores. Era Hio Bila, o playboy. Trazia o quadro da Kombi embaixo do braço. Estendeu para Tio Zózimo.

Mas, por quê? É que a noiva, moça linda, de fora, rompera o compromisso. Não viria mais casar nem namorar. Acelerou a motoca. Deixando Tio Zózimo com o quadro do retrato na mão. E um olhar bobo espetado no ar.

Desamparado com a dor do playboy, chegou cabisbaixo, ensimesmado, meditabundo à casa de Marina. A foto dos Beatles e a devolução de Hio Bila. Comovida. Reviu os quatro rapazes de Liverpool. Viu também no rosto de Tio Zózimo, ele não sabia o que fazer com o quadro do retrato da Kombi amarela, que, antes, ele tanto queria.

Equilibrada e sorridente, pediu para si. Ia colocá-lo junto, na parede da garagem, com outras fotos. Nenhum dos dois contou para seo ninguém. A cidade se esqueceu dos retratos. Adormeceu na memória.

No final do ano, última reunião, Marina fez questão. Na casa dela. Na garagem. Festa à fantasia. Anos 60. Terninhos, tubinhos, bocas de sino e cabelos longos.

Os retratos na parede. Só aí todo mundo soube do resgate. Das fotografias do passado.

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