TESTE HORIZONTAL

Tio Zózimo: Passinhos, melissas e penteados Xororó

Leia a crônica escrita pelo professor Donizeti Donha e publicada na 263ª edição do Jornal Agora
por Donizeti Donha, especial para o Jornal Agora em 21/07/2018

Vou contar para o senhor. Quando Tio Zózimo descobriu as noites eletrônicas no Clube foi um encanto. Vento ventania. Maravilhado. O colorido das roupas bufantes, os grupos dançando em passinhos marcados, as meninas com sandálias melissas e blusas com ombreiras. Conquistado de cara. Ursinho blau blau.

Cortou os cabelos a Xororó, comprou uma calça pra cima do umbigo, uma camisa um número maior, manga comprida, um tênis chinesinho e se adaptou aos novos tempos e modas. Bee Gees, topetes e guaranás.

Mas, as novidades não cessaram aí, não. Circulou entre o pessoal da Rua de Baixo. A incrível Paquera na Avenida. Som de alto-falante, locutor no local e até filmagem de uma câmera.

Tio Zózimo, Altamiro e Danísio. Os três. Imaginando-se lá. Entre os grupos de jovens, na frente do Cinema. Nas calçadas da praça. Conversando animados.  Vendo os carros passarem. Voyages, Kadetts, Fuscão Fafá, Brasílias e Corcel 2.

Foi então que Altamiro, que estava terminando seu curso de mecânico por correspondência e estava treinando montar e desmontar motor em um antigo Fiat 147, sugeriu que fossem com o carrinho para a Avenida. Aí a empolgação cresceu em grau e volume. Mamma Maria. Não convidaram ninguém da turma.

Só que Altamiro ia precisar acabar de montar o motor até sexta-feira. Tio Zózimo já se via no banco de trás do Fiat 147. Desfilando entre a muvuca de automóveis, lentamente, na frente da praça. Importante. Uma fita k-7 do Gilliard rodando no Road Star. Não ia ter pra ninguém. Integrados àquela multidão de garotas mascando chicletes e de terninhos de shorts.

Na sexta, de manhã, Altamiro avisou que ia testar o motor. Remontado. Peças lavadas uma a uma, na gasolina. No capricho. A vizinhança toda se reuniu para ver o resultado. Tinha gente nas balaústras, nas janelas, nas portas do Bar do Seo Nezinho.

Altamiro trocou o uniforme de mecânico pela roupa brilhante da noite. Ajeitou o cabelo, mais longo na nuca. Topete curto na testa.  Piloto de Fórmula 1, entrando no seu módulo. Todos aguardando o vigoroso ronco do motor. Prontos para aplaudir. Sentindo a grandeza do momento, Altamiro acionou a chave na ignição. O barulho do motor nem tchum. Ligou, de novo. Nada.

A plateia murchou. Seo Alípio, do Bazar da Esquina, ia até fazer uma piadinha. Calou-se. Primeira vez na vida respeitou uma situação.

Tio Zózimo e Danísio correram abrir a tampa do motor. Alguém gritou. Cuidado, vai explodir. Ressabiados, abriram. Nem uma fumacinha. Sinal nenhum. Altamiro, com cara de poucos amigos e olhar científico nem piscava. Verificou vela, virabrequim, carburador e correia. Tudo em ordem. Não entendia o porquê do fracasso.

Para piorar, Rosinha do Fusca Azul vinha descendo a rua. Vendo a situação foi estacionando. Bicicleteiros subiram nas calçadas. Cachorros pararam de latir.

Rosinha tinha feito curso de eletricidade de automóveis, em segredo. Tinha aprendido tudo. Foi bater o olho e diagnosticar o problema do Fiat 147. Inverteu uns fios. Apertou os fusíveis. Remanejou os cabos da bateria e deu a ordem. Liga agora, quero ver se não funciona.

Foi qual e tal. O motor até se ria de tão bom que ficou. Altamiro acelerou, Tio Zózimo e Danísio correram atrás para embarcar.

Foram até o alto da rua, ladeira acima e retornaram. O povo aplaudiu. Rosinha já tinha ido embora. Nem ficou para receber os agradecimentos.

Faltava pouco agora para a paquera da Avenida, no domingo. Roupas passadas, cabelos no grau, Fiat 147, com adesivo do Top Gun, em ponto de bala. Coração gelado, bite acelerado.

Domingão, já de manhã, o grupo de amigos, na calçada, repassando os planos. Foi quando a mãe de Altamiro gritou da janela. Você ainda não tem carteira de habilitação, menino, nem se assanhe a ligar este carro.

Ducha Corona de água fria. Os planos indo para o ralo. Até as árvores silenciaram seus passarinhos. Os três olhando para o chão. Destruídos.

Comovida, a mãe encontrou a solução. Por que não pedem para Rosinha levar vocês? Ela tem carta de motorista. Um gosto de Emulsão de Scott desceu garganta adentro. Tio Zózimo pensou, antes um remédio amargo do que nenhum. Convencidos foram atrás de Rosinha.

Correram à casa dela. Não estava lá. Onde estaria? Um irmãozinho dela disse que talvez estivesse na casa da Maria Eduarda, do Segundo B. Correram para lá. Já tinha saído. Talvez tivesse ido comprar revistas.  Jeito era ir atrás. Não a acharam. Voltaram cabisbaixos. Derrotados. Sem esperanças de irem à Paquera. Veriam Tutu Barão na tv?

Alguém trouxe a notícia. Rosinha chegou. Rosinha chegou. Casa dela. Ufa. Vamos lá. Pediram. Imploraram. Ela não podia ir. Tinha prova de Português, na segunda. Eita, situação difícil. Assim não tinha jeito. Só derrotas. Tomaram o caminho do portão, sem rumo, desarvorados. Rosinha gritou. Tem um jeito que posso ajudar. Se der bem, se não der, também. Explicou que tinha pensado.

O gosto de Emulsão de Scott ou boldo do Chile retornou à boca. A vontade de participar da Paquera na Avenida era grande. Mas estava tão difícil. Aceitaram a proposta. Amarga.

E foi assim. Rosinha ao volante, levou os três até a praça. Estacionou o Fiat 147 no melhor ponto estratégico e voltou para casa. Estudar. Duas horas antes do início da Paquera. Retornou pra casa deixando os três galãzinhos sonhadores no local.

Quando o evento tão esperado se iniciou, os três já estavam lá. Encostados na tampa de trás do Fiat 147. Cabelos em ordem. Olhar 45. Latinha de guaraná na mão.  Conversaram com muitas garotas. Mas com medo de que alguma pedisse para dar uma volta no possante.

Quando a paquera acabou, todos foram se retirando. A noite caindo. Até só sobrarem os três galãs em volta do Fiat 147. Um sereno forte. Um friozinho cortante. Uma fome de leão. Será que a Rosinha se esquecera de vir buscá-los? O que estaria acontecendo? Os guardas noturnos já apitavam ao longe. A Fonte Luminosa ligada. A fila do cinema aumentando. Os três que nem dois de paus. Vontade de tomar banho. O quentinho de casa.

Daí a meia hora, apareceu Rosinha. Ufa, alívio.  Apressada. Se desculpando. Estava resumindo um livro. Um romance. Eles poderiam esperar mais um pouco? Ela tinha que ir à farmácia.

Esperaram dentro do carro. Famintos e friorentos.

TESTE VERTICAL
www.portalagora.com Fone: (44) 3133-4000 Rua Renê Táccola, 190 - Centro - Mandaguari - PR