TESTE HORIZONTAL

"Tio Zózimo: O dente do juízo"

Confira a crônica escrita pelo professor Donizeti Donha, publicada na 250ª edição do Jornal Agora
por Donizeti Donha, para o Jornal Agora em 21/04/2018

Havia a colheita do café. Grandiosa. Exuberante. Mas, havia também a colheita da lavoura branca. Milho, feijão, arroz que os porcenteiros tinham direito de plantar nas palhadas, região do final do sítio. Abaixo do espigão.  À beira do riozinho.

Quando chegava a época, surgiam os mutirões. Grupos de vizinhos se reuniam para ajudarem-se uns aos outros. Principalmente àqueles que por algum problema familiar tivessem se atrasado. Era sagrado. Era bom. Era uma festa.

Grandes grupos de lavradores, em ritmo, ceifando, recolhendo, selecionando. Cantando, contando histórias. Antigas lendas.  Notícias novas.

Quem sabia das novidades do mundo inteiro era o Quim. Ele tinha comprado um rádio Transglobe, à pilha. A gente não sabia até onde era verdade o que ele contava. Mas era bom ouvi-lo, enquanto as espigas caiam nos balaios, o feijão era abanado e ensacado, as ramas de arroz, empilhadas.

Uma vez ele disse que o país dos russos tinha enviado uma cadela, chamada Laika, ao espaço. Pra lá da Lua? O povo não conseguiu esconder a risada de mofa. Um mês. Ficou desacreditado o Quim. Certamente extraviara o juízo com este negócio de rádio de ondas curtas, comentavam longe dele. Nosso amigo até perdeu a vontade de ouvir seu aparelho. Barganhou seu Transglobe por quatro cabritas pé duro com um vizinho que estava de mudança para Cascavel.

Quando sucedeu tudo isso, Tio Zózimo estava deixando de ser menino novo. Barba crescendo. Gogó e talicoisa. Pena tinha comprado sua Kombi amarela. Fazia fretes e carretos das colheitas. Estava aprendendo. Não sabia direito os caminhos e os carreadores. Desvios e atalhos da vida para o jovem são porteiras assombradas. Atrapalhado, não foi nem uma, nem duas vezes, fora ao sítio errado ou se perdera entre as ligações do Keller com o Cambota. Labirintos da vida. Sem fio da meada.

Aprendizagem difícil. Complicada. Danou sentir saudades da infância perdida. As tardes que passava jogando bola no pátio da escola. Os mergulhos no riacho. As excursões para campear cachoeira. As viagens na carroceria do caminhão do Vico. Assistir, longe, torneios de futebol.

Uma buzina o acordou do devaneio. O farol verde. Nem reparou. O sol no final da avenida. Um Gordini 61 em frente à Lusitana. O ônibus do Paraíba em frente ao Escritório do Jesú.  Um fiscal do IBGE fazendo entrevistas. Abastecer o tanque de manhã, no Posto Atlantic, no curvão. Correr, voltar, correr, descarregar.

Na infância queria ser gente grande. O que você quer ser quando crescer? Motorista, chofer, condutor, maquinista de trem, piloto de teco-teco. Cada dia uma resposta.

Perdido nas dores de cabeça do dia a dia.  Difícil se acostumar com os quinhentos cruzeiros no final de semana.  Herói do volante sem dinheiro para o cinema.

Vontade de largar a Kombi, arregaçar as calças e entrar na partida de futebol no campo de japonês ou pescar lambaris nas taboas da pedreira.

Algumas famílias começaram a reclamar dos atrasos. Tinham pressa. O cereal também. Outras, de que Tio Zózimo estava estregando os produtos em endereços trocados. Tinha que fazer tudo de novo.  Sem tempo de fazer as tarefas do curso noturno. Faltava. Perdia.

 Já murmuravam em dispensá-lo. Trocar por um carroceiro.

Quem se preocupou foi Isadora. Convocou três vezes.  Ele fugia. Não podia confessar seus fracassos logo a ela por quem sentia admiração e sonhava um dia impressionar.

Não teve jeito de continuar fugindo. Isadora não tinha o fio do novelo, mas sabia puxá-lo. Encantoou Tio Zózimo quando chegou ao escritório para entregar as notas fiscais da semana.

Ela trazia um caderno com agenda, endereços de cada propriedade e mapas de todas as estradas rurais. Anotado o melhor caminho para o Bom Jesus. A melhor hora para o São Roque. Como ir da São Sebastião para a Sagrada Família. O atalho da Divino Coração para a Santíssima. A menor reta entre dois pontos. Tabela de preços de combustíveis. Tudo.

Na primeira lição, Tio Zózimo tentou prestar atenção, mas se perdia no perfume de Isadora. A mão dela ensinando fazer anotações. As unhas. Os cabelos. Precisou de três lições repetidas.

Aprendeu devagarinho. As entregas começaram a fluir. As famílias o chamavam de volta. Até o contador do Escritório se espantou com a mudança. Nunca mais notas fiscais imundas.

Numa ponta tudo se acertava. Na outra descarrilava. Isadora fazia cada vez mais parte dos seus pensamentos. Lembrava-se dela a cada acerto. Ria-se de como errava tudo antes. Conversava sozinho imaginando que ela estava sentada no banco ao lado.

Complicação. Estava confundindo amizade com amor? Podia dar um passo à frente. Confessar? Declarar-se. Abrir o coração? As palavras, cadê as palavras. Procurava.

A dor de cabeça desceu para o maxilar.  Caxumba? Tomou montes de chá. Parecia que sarava. Retornava a dor. Um sitiante passou uma tarefa. Entregar a um dentista na cidade uma caixa de frutas vermelhas. Era gratidão por um tratamento. Anotou o endereço de entrega. Era ao lado da Livraria do Seo Juca. Na esquina do Clube.

Chegou, meio sem jeito. A caixa na mão. Nunca tinha conversado com um doutor. Falava com dificuldade naquele dia. A dor, insuportável. O dentista percebeu. Na hora, deitou Tio Zózimo na cadeira. É, você está com o dente de juízo apontando. Meia hora? Dr. Bianchini falou, agora, sim, você está na idade adulta.

Foram dias se recuperando. Conversando sozinho enquanto trocava as marchas da Kombi. Estava ficando claro. As mudanças em sua vida eram pra valer. Não adiantava tentar escolher outros caminhos. A placa da vida indicava sentido único.

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