TESTE HORIZONTAL

Os 70 anos do “Leão do Norte”

Mandaguari Esporte Clube comemora sete décadas de uma história marcada por glórias, curiosidades e polêmica
por André de Canini/Semiótika Comunicação, especial para o Jornal Agora em 19/04/2018

Domingo, 11 de abril de 1948. Em uma reunião entre esportistas e pessoas de grande influência política, social e econômica, a sociedade mandaguariense tirava do papel um projeto idealizado pelos seis anos anteriores. Naquele dia era fundado o Mandaguari Esporte Clube, o MEC, um clube que teve grande projeção no futebol estadual entre as décadas de 50 e 60, mas que, como a maioria dos grandes times da época, não conseguiu se manter em evidência.

Ao longo desses anos o MEC colecionou muitas glórias. As memórias daqueles que participaram direta ou indiretamente dessa trajetória dariam para escrever inúmeros livros, a exemplo da biografia do paraguaio Feliz Lescanõ, que foi talvez o principal artilheiro do clube desde a sua criação.

Quando completa sete décadas de existência, o MEC tenta reescrever uma nova página de sua história em meio à polêmica criada em torno da venda do antigo estádio para a construção de um novo complexo esportivo.

Campo de terra sem alambrado

Em setembro de 1958 no “Norte do Paraná em Revista”, o comentarista esportivo Cesar Trauczinski, que escrevia com o pseudônimo de Cesar Olavo, relatou que o plano de criar um time de futebol oficial em Mandaguari começou a ser pensado em 1942. A ideia inicial era montar uma equipe para realizar amistosos na cidade e disputar competições regionais apenas como forma de oferecer uma opção de lazer para a população. Este, no entanto, não era o desejo de algumas pessoas classificadas por Olavo como “líderes” do município. Havia, segundo ele, um grupo que sonhava mais alto e queria uma equipe forte, capaz de enfrentar times famosos da época em pé de igualdade. Isso mais tarde se tornaria realidade.

A primeira diretoria do MEC tinha Guilherme Spinguel como presidente e Alvino Pereira como secretário. Completavam o time de “cartolas”: Luiz Dianin, Caetano Soares, Décio Medeiros Pulin, José Sespede, Milton Gonçalvez Campos e Wilson Varela.

O técnico era Francisco de Paula Teixeira, o Evaristo, que logo de cara conseguiu formar uma equipe que disputou 32 jogos seguidos sem sofrer nenhuma derrota.

Os primeiros jogos do MEC eram disputados num campo de terra que havia quase em frente à igreja, num espaço hoje ocupado pelo Fórum, Câmara Municipal e agência dos Correios. O estádio só seria construído em 1957, quando o clube já estava sob o comando do médico, e na época vereador, Alfredo Rodrigues Brianez. Além do estádio, a estrutura montada contava com uma rinha para briga de galos, prática permitida na época.

“Invasão” de paraguaios

Um ano antes da construção do estádio, o MEC ganhou um reforço de peso. A diretoria do clube “importou” sete jogadores paraguaios. O grupo fora trazido ao Brasil pelo Atlético Clube Paranavaí, que os contratou para reforçar a equipe num jogo amistoso contra o São Paulo, vice-campeão paulista que tinha como técnico Vicente Feola, campeão do mundo em 1958 com a seleção brasileira.

Mesmo com a equipe paranaense perdendo por 2 a 1, os paraguaios fizeram a diferença na partida disputada em Paranavaí. Na arquibancada estavam os dirigentes do MEC que não perderam tempo. Bastou o apito final do árbitro para eles entrarem em contato com o empresário que intermediou a vinda dos estrangeiros, fazerem a proposta e acertarem os detalhes para colocar os estrangeiros defendendo o escudo azul e branco do MEC. Felix Lescanõ, Sosa e Gimenes puxaram a fila. Em Seguida vieram Escobar, Brum, Colmam, Malgarejo e Chulipa.

Na opinião do jornalista Arlindo Ribeiro, que por muitos anos cobriu os jogos do MEC, essas contratações foram decisivas para emergir o temido “Leão do Norte. “Com eles, e os demais jogadores da cidade, o time ficou imbatível. A torcida comparecia em peso. Pessoas de várias cidades vinham para Mandaguari assistir aos jogos”, lembra.

Arlindo afirma que foi o alto nível da equipe mandaguariense que fez com que o presidente da Federação Paranaense de Futebol reconhecesse o profissionalismo dos times do interior e abrisse espaço para eles se associarem à entidade.

O Título de 1960

O auge do MEC aconteceu em 1960, quando a equipe se sagrou campeã do Norte e disputou o título estadual com o Coritiba.

Após o empate em casa por 1 a 1, o time embarcou rumo à capital para o jogo decisivo. Apesar da garra da equipe, o jogo na casa dos “coxa brancas” não teve o resultado que os “pés vermelhos” esperavam. Com o placar de 4 a 0 sobre o “Leão do Norte”, o Coritiba levou o título estadual daquele ano.

O aposentado Valentin Guerino, mais conhecido como Valente, teve a honra de vestir a camisa azul e branca e defender o Leão do Norte neste período. No livro “Felix Lescanõ: símbolo de uma raça”, de 2012, Valente conta que o MEC era uma equipe difícil de ser derrotada. Mesmo quando o adversário abria o placar o time muitas vezes conseguia virar o jogo por possuir uma capacidade enorme de reação.

 

O fim do time profissional

A fase áurea do MEC não durou muito. De acordo com os livros que abordam a história do clube, no final dos anos 60 os principais jogadores estavam encerrando a carreira e os novos atletas começavam a exigir salários mais altos, dificultando para a diretoria fazer novas contratações, e manter o time se tornou inviável.

O fim do profissional, no entanto, não significou o fim do MEC. Nos campeonatos amadores disputados desde os anos 70, o Leão do Norte contou com equipes de alto nível e conquistou diversos títulos regionais. Por essas equipes passaram jogadores que chegaram a jogar profissionalmente em times de renome no cenário estadual e nacional.

O comerciante Ademir Povh, 63 anos, viveu a fase de transição do MEC e tem inúmeras recordações. Quando adolescente, Cabeção, como é conhecido, chegou a participar dos treinamentos físicos com os jogadores profissionais do MEC e mais tarde vestiu a camisa da equipe em amistosos e campeonatos amadores como os organizados pela Liga Desportiva de Maringá. “Mesmo no amador o MEC tinha um time muito forte, que era respeitado pelos adversários. Tinha muito jogadores bons, como por exemplo o Roberto Fonseca, que virou profissional”, conta Povh. Fonseca, a quem ele se refere, jogou pelo Londrina, Grêmio de Maringá, Bahia e São Paulo, entre outros. Quando encerrou a carreira, passou a atuar como técnico.

Curiosidades

Jogo de azar

- O empresário que intermediou a contratação dos paraguaios em 1956 era dono de um parque de diversões que em seguida se instalou no centro de Mandaguari e passou a dar grandes contribuições financeiras ao MEC. A grande movimentação no parque chamou a atenção das autoridades, entre elas o então promotor de justiça João Paulino Vieira Filho. Descobriu-se então que a estrutura na verdade era usada como fachada para a prática de jogos de azar. O promotor, que era um dos diretores do MEC (mais tarde o estádio do time seria batizado com seu nome), preferiu então fazer vistas grossas às ilegalidades praticadas pelo empresário.

 

Perna quebrada

- No primeiro jogo da final do paranaense de 1960, durante uma disputa de bola com o zagueiro Bequinha, o atacante Felix Lescanõ acabou fraturando a perna do adversário. Nos dias seguintes a torcida coxa branca e a imprensa da capital não pouparam críticas ao paraguaio. Bequinha, que era atleta da seleção brasileira, chegou a receber a visita de Lescanão no hospital nas vésperas da final.

 

Brigas

- Da mesma forma que despertava a paixão nos torcedores, a equipe de ouro do MEC também ascendia a ira dos adversários. Na casa dos adversários era comum o time ser recebido com hostilidade, que iam desde simples xingamentos até pedradas no ônibus que levava os jogadores. Os tumultos e brigas em campo, seja com os jogadores rivais ou a torcida contrária, também eram frequentes.

 

Arbitragem

- Não é novidade times do interior reclamando da arbitragem quando jogam contra os grandes da capital. Há relatos de que na primeira partida da final do paranaense de 1960 o Leão do Norte foi prejudicado pelo árbitro, que paralisava a jogada sempre que o MEC levava perigo ao gol do Coritiba.

 

Amistosos

- Quando estava no auge, o MEC realizou amistosos contra a elite do futebol nacional. Na lista de adversários que enfrentaram a fúria do Leão do Norte estão Corinthians, São Paulo, Internacional, Grêmio de Porto Alegre e Vasco da Gama.

Fonte: livro Felix Lescanõ: símbolo de uma raça

 

A polêmica do estádio

Nos últimos anos todas as conversas que envolvem o Mandaguari Esporte Clube convergem para um único tema: a desativação do estádio João Paulino Vieira Filho, que resultou na demolição das arquibancadas e o loteamento do terreno. O espaço então ocupado pelo estádio havia sido cedido pela Companhia Melhoramentos em 1949 em sistema de comodato. Para poder lotear o imóvel, o clube assumiu o compromisso de construir um novo complexo esportivo em uma área que foi adquirida fora do perímetro urbano.

Desde então o projeto vem sendo duramente criticado por pessoas que consideravam aquele espaço, mesmo não pertencendo ao poder público, um patrimônio histórico do município ou consideram que a mudança representou o fim do futebol na cidade.

Procurada para comentar o assunto, a atual diretoria do MEC explicou que tudo que foi proposto está sendo cumprido. Até o momento, na nova sede, localizada na saída para Arapongas, já foram construídos dois campos com iluminação para a prática de futebol suíço, um campo em tamanho oficial, além de um espaço para lazer com área de festa, churrasqueira, banheiros e uma pequena piscina. A infraestrutura executada ainda inclui calçamento com pedras irregulares nas ruas internas do clube, sistema para escoamento de água e a terraplanagem das áreas que abrigarão o futuro estádio e o estacionamento.

De acordo com o presidente do clube, Isaltino Felício da Silva, estão sendo acertados os últimos detalhes para a construção das arquibancadas e vestiários do estádio e as obras devem começar em aproximadamente 60 dias.

*Matéria publicada na 250ª edição do Jornal Agora

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