TESTE HORIZONTAL

"Tio Zózimo: Broinha de fubá"

Leia a crônica escrita pelo professor Donizeti Donha e publicada na edição 249 do Jornal Agora
por Donizeti Donha, para o Jornal Agora em 14/04/2018

Tio Zózimo, coração na boca, aguardava a quinta-feira.  Era dia de levar à casa de Dona Amélia o fubá exclusivo, moído na pedra e água da cascata do Rochedo. Do melhor milho doce, o Xadrez.

Contornava a estrada da Serrinha. O aroma do sereno ia sendo tomado pelo cheiro do café pena coado. Chaminés repousando nos telhados vermelhos contrastavam com o verde da plantação.  Abria a porteira de arame farpado. Olhando com cuidado onde pisava. As vaquinhas zebus costumavam deixar pistas perto dos mourões.

Dona Amélia já o esperava.  Corria buscar a embalagem de fubá e desaparecia corredor adentro. Lept, lept nas chinelas. Baú de mistérios. Escondia o fubá?

Na volta trazia a caneca de leite e café. Uma broinha de fubá. Derretia na boca. Tio Zózimo olhava pela janela. O sabor trazia a infância de volta.

Só na casa de Dona Amélia, a broinha de fubá atingia aquela cor, aquele sabor. O regato correndo entre os pés de inhame. O mugido do touro Herói. O canto do sabiá na amoreira. Nenhum conflito até onde os olhos alcançavam.

Nas vezes, quando vinha pra Serrinha, Tio Zózimo só se irritava porque não conseguia enxergar além das pequenas montanhas cobertas de palmitos e perobas. O que se escondia do lado de lá? Algum dia veria?

Dona Amélia gostava de receber as amigas na casa da cidade. Jardim na frente. Flores e uma imitação de fonte. O bule esmaltado. Canecas com figuras boazinhas. Café e a deliciosa broinha que ninguém conseguia imitar. Ela era a rainha. Só invejas?  Se mostrava.

Pediam a receita. Não negava. Até oferecia. Sabia que ninguém tinha o milho doce xadrez para lhe roubar o direito de ser o centro das atenções.

E outra coisa. Quem sabia fazer a broinha de milho era a preta Margarida. Com aquele milho ela era capaz de fazer milagres no forno e na cozinha.

Ah, a preta Margarida. Sua casa era no fundo do mamonal. Perto do riacho. Depois da tulha. Trilha das feras beberem água. Chão de terra batida. Os poucos alumínios brilhando. Estrelas na prateleira rústica. O forno no terreiro, um brinco. O filho estudando sempre o mesmo livro surrado. Viagens de Gulliver. Sentado num toco. Sob a janela fechada.

Tio Zózimo cumprimentava, conversava, gostava daquela normalidade. Vidinha boa. Respeitava a ordem de Dona Amélia. Nunca trazer fubá para a preta Margarida.

Gostava daquela paz. Eterno sossego. Cada coisa em seu lugar. O pinheiro, o cavalo, o forno.

Bateu os farelos das calças e partiu. Na porteira. Uma pedra estilhaçou a paz do silêncio. Cravou no mourão esquerdo. Espantado, Tio Zózimo se virou. Era Isadora.

Bonita, mas onde botava o olhar saía faísca. Tio Zózimo temia a bela.

Se apaixonar era fácil. Difícil seria acompanhar. Conquistar, então, fora de cogitação. Mas dava um boi para ser admirado por ela.

Ela nem precisava usar poderes sedutores. Ia direto à raiz. O que seria desta vez? Nem deu tempo de perguntar. Por que você não traz um tanto do fubá especial pra preta Margarida? Se é ela quem faz a broa inigualável, ela poderia comer e vender também. Mudar de vida. Ter uma casinha na cidade. Estudar o filho.

Tio Zózimo não sabe até hoje se respondeu alguma palavra na hora. Só lembra que quando chegava ao Matão não sabia se sentia raiva de si mesmo ou do mundo. Alguma coisa tinha.

Não eram as montanhas que não o deixavam ver além.

Desta vez torceu para o tempo empacar. A semana não correr. O recado de Isadora. A ordem de Dona Amélia. A broinha da preta Margarida. Um duelo sem espadas. Dores de cabeça.

Na quinta, dia D, coração aos pulos. Decisão. Isadora. Suas calças jeans. Blusa xadrez. E o olhar? A pedra na porteira. O milho.

Raiva. De pensar? Da Kombi que engolia trechos da estrada? Da Isadora enxergando longe? De Dona Amélia que controlava o fubá? Da preta Margarida que tinha artes nas mãos? Ou dele mesmo? Resolveria na hora. Postergava.

Decidiu. Fez o que fez. Fugiu de Isadora, um ano. Não queria vê-la. 365 dias de fuga.

A preta Margarida já morando na cidade. O filho estudando. Um forno só dela. Freguesia boa. Casa de assoalho, luz elétrica. Tudo correndo bem.

Tinha de fugir de Isadora, mas não conseguia fugir da paixão. E ter de subir mais alto para enxergar mais longe. Desmontar cenários. Ela ia orientar. Exigir.

Dona Amélia proibiu idas de Tio Zózimo à Serrinha. Inventou histórias cruéis dele paras as amigas do chá da tarde. Elas riam por dentro. Agora podiam ter em casa, encomendadas da preta Margarida, broinhas de fubá. Embalagens de ouro ao lado dos bules fumegantes. O chá e o café. À tarde, a cidade encantava-se com o aroma desta mistura.

Tio Zózimo tinha descoberto que a paz poderia ter novos cenários. Só não tinha paz ao se lembrar de Isadora.  Dona das suas ideias.

 

Donizeti Donha é professor de Língua Portuguesa e Literatura na rede estadual de ensino, em Mandaguari.

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