TESTE HORIZONTAL

"Tio Zózimo: Em busca do gibi perdido"

Confira a crônica escrita pelo professor Donizeti Donha, publicada na edição 241 do Jornal Agora
por Donizeti Donha, para o Jornal Agora em 02/12/2018

Já tentei várias vezes contar para o senhor, mas este caso é liso igual bagre ensaboado. Começo. Nunca termino. Me perco. Acabo falando de outras coisas. Por que será? A história deste gibi nunca ficou bem explicada.

Tudo começou quando o Rogério, o Nicolas e o Brendon inventaram de criar um gibi, com um herói da cidade. Com superpoderes, uniforme e tudo o mais, para defender a região de um poderoso grupo de bandidos liderados pelo famoso Enigma. Um bandido ambíguo. Metade do rosto mau. A outra metade, risonha.

Até aí tudo bem, mas o que eu esqueci de contar é que os três tiveram esta inspiração de criar o gibi assim que a banca da praça trouxe as primeiras revistinhas. Eles ficaram empolgados. Todos gostaram da leitura de pequenas histórias em quadrinhos.

Mas havia um motivo mais forte. Começou a correr nas ruas, casas e bares, um boato. Um bando de malfeitores estava ludibriando famílias de pioneiros. Vendendo terrenos falsos. Datas, chácaras, sítios.  Entregavam documentos falsificados e fugiam com o dinheiro e esperanças.

Baseados nesta situação, eles dividiram as tarefas. Rogério ficou responsável pelo roteiro. Brendon se incumbiu de pesquisar sobre os golpes. Nicolas, os desenhos.

Após muitos debates, acharam que deveriam criar um herói meio despojado, cheio de dificuldades.

Assim, criaram o Gibi do Tio Zózimo. Que tinha uma Kombi amarela. Só um farol funcionando. Pneus carecas. Radiador soldado com fitas adesivas. Calças de tergal. Camisa Volta ao mundo. Muito dedicado à verdade, influência da mãe. E uma capacidade enorme de fazer gambiarras, resolver palavras cruzadas, problemas de motor 1200 a ar e desmontar cadeados Pado. Este era o herói do gibi.

Dedicaram-se um mês inteiro à tarefa.

Tio Zózimo descia pela Avenida. Noite escura. Após a sessão de cinema. O vento assoprava panfletos das Casas Buri. A Kombi, com seu único farol aceso, procurava os bandidos que infernizavam a vida dos sitiantes. Cidade escura. Até a Fonte Luminosa já se apagara. Um ou outro bar com lâmpadas amarelas acesas.

Na altura do Curvão, um Gordini metálico. Muito suspeito. Os olhos ágeis de Tio Zózimo captaram. Era um bar da madrugada. De madeira. Ovos cozidos azuis no balcão. Certeza que o Enigma, vilão de duas caras, estava lá dentro.

Freada brusca da Kombi. Num salto, Tio Zózimo superou os 3 degraus da escada. Não deu outra.  Enigma frente a frente. O vilão, com uma pasta cheia de escrituras de imóveis, tomava um pingado requentado. No susto, ambos saltaram sobre o balcão, derrubando garrafas de jurubeba.

Sem saída, Enigma usou seu plano B. Bateu em retirada pelo telhado do Bar. Não contava com a destreza do herói. Tio Zózimo voou em sua perseguição.

De telhado em telhado. O herói e o vilão rasgaram a noite da cidade. Em um pega-não-pega. Do telhado do bar, Enigma saltou para o telhado da máquina de café dos 3 japoneses.  Daí voou para a forquilha do poste de madeira. Num segundo já estava sobre o Bocha do Seo Aurélio. Olhou para trás. Tio Zózimo vinha que vinha.

Enigma respirou fundo. Já estava no alto da Casa Lusitana. Sorveteria italiana do Japonês. Bar do Paraíba. Banco Comercial. Foto Elite. Transparaná. Cumeeiras e antenas de TV. Sentia a respiração de Tio Zózimo. Por mais que corresse, o herói estava no seu cangote. A poucos passos.

Herói e bandido não se cansavam. Quando saltaram sobre o telhado da Casa Brasil, a estrutura cedeu. Não aguentou o peso. Os dois desceram já trocando golpes. Enigma disparou a pé pela Rua do Clube. Tio Zózimo foi correr. Sentiu uma mão forte paralisando-o. Era o Delegado Calça-Curta. Não queira dar uma de herói, velhinho. Deixe isto para os homens da lei.

O gibi terminava nesta cena. Gancho. Anunciando a sequência no número 2. Mês que vem. Dizem que esgotou. Mil exemplares impressos no mimeógrafo da Escola. Todos vendidos. Disputados.

Dizem também que os três amigos foram proibidos de imprimir o número 2. E que vieram uns homens de óculos pretos ameaçando prender as revistinhas. Não sei dizer por quem. Só sei dizer que o tempo passou e dos mil exemplares não restou nem unzinho para contar a história.

Às vezes, eu penso até que foi lenda esta história de gibi. Que não aconteceu nada disto. Mas tem um senhor que encontrei na Circular, vindo de Jandaia, ele disse que conservou um exemplar e que vai mostrar para nós.

 

Donizeti Donha é professor de Língua Portuguesa e Literatura na rede estadual de ensino, em Mandaguari.

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