TESTE HORIZONTAL

A batalha de Porto Alegre

Repórter foi à capital gaúcha para acompanhar o julgamento que condenou Luiz Inácio Lula da Silva a 12 anos de prisão; matéria especial relata experiência, além de trazer depoimentos de simpatizantes e oponentes do ex-presidente
por Airton Donizete, especial para o Jornal Agora em 02/10/2018

Primeiro passo: arrumar uma carona pra Porto Alegre. Consegui com o pessoal do PT, de Maringá, que foi à capital gaúcha em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em julgamento no Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região. Os mais afoitos podem dizer que viajar com uma parte interessada pode influir na cobertura do jornalista. Nos Estados Unidos, uma comitiva de jornalistas sempre viaja no avião presidencial. Os jornalistas também viajam no avião que conduz o papa, não é?

Não vejo problema em viajar junto, até porque falar em imparcialidade é algo complexo. Ninguém é imparcial. Todos têm uma ideologia. Estudos da Análise do Discurso com base em Michel Pêcheux e Foucault nos ensinam que o sujeito é assujeitado e toda fala é pré-construída. O problema talvez esteja nos excessos. O puxa-saquismo sem limites, por exemplo. Um veterano jornalista dizia que tem gente que não se contenta em ir a um baile de casamento e, chegando lá, faz questão de dançar com a noiva.

A viagem foi tranquila. Na entrada da capital gaúcha havia uma barreira da Polícia Federal, que não parou nosso ônibus. Chegamos ao centro velho de Porto Alegre. Alguns desceram ali; outros ficaram no acampamento dos movimentos sociais e petistas próximo do TRF4. Eu me credenciei para ficar no pátio do tribunal, onde jornalistas acompanhariam o julgamento por um telão. Fiquei um pouco lá e voltei para o acampamento. Preferi ficar em meio ao povo, buscando novidades e conversando com pessoas que vieram de várias partes do Brasil e do exterior. 

Antes disso, na noite anterior ao julgamento, houve um grande comício na chamada Esquina Democrática, no centro histórico de Porto Alegre, esquina da Avenida Borges de Medeiros com Rua da Praia. Segundo os organizadores, 80 mil pessoas se concentraram ali. Lideranças do PT e de outros partidos se revezaram na fala. O ex-presidente Lula, último a discursar, disse que não ia falar sobre seu julgamento. Ele preferiu enumerar as principais conquistas sociais do seu governo.

As pessoas se apertaram, sufocando quem estava próximo ao palco. Houve desmaios. Do meu lado, uma senhora que estava próxima à barreira do palco desabou. A ex-presidente Dilma Rousseff discursava e pediu que a socorressem. O governador do Acre, Tião Viana (PT), que é médico, reanimou-a. Tiraram-na do local e a levaram para uma ambulância. Para chegar ao lugar reservado à imprensa, tive dificuldades. Muita gente querendo entrar ao mesmo tempo. Com muito custo, consegui passar mostrando minha credencial.

Fiquei próximo ao palco, com facilidade para fotografar os oradores. Após o ato, a multidão voltou pela Avenida Borges de Medeiros rumo ao acampamento. Não vi violência, mas nesta mesma via algumas agências bancárias colocaram tapumes nos vidros. Algumas o fizeram às pressas por voltas das 18 horas daquela tarde.

No acampamento, enquanto seguia o julgamento, ouvi três pessoas contrárias à condenação do ex-presidente. Após os rápidos depoimentos, lembrei que tinha de ouvir mais três favoráveis à condenação de Lula para equilibrar o texto.

Prós e contras

Não podia me afastar muito do acampamento e não encontrei opositores do PT. Mas os entrevistei pelo Facebook. Não vou abordar detalhes do julgamento porque a mídia já o fez à exaustão. Parei próximo de uma barraca. De onde vinha um som: “O dia em que o morro descer e não for carnaval”, samba de Wilson das Neves. Sentado no chão, com cara de ressaca, estava o metalúrgico José Silva, 58, de Guarulhos (SP). “Lula é um grande líder, que junto com o PT tirou 35 milhões de pessoas da pobreza extrema”, afirmou.

Silva tirou o boné branco, olhou para o céu e completou: “Lula não cometeu crime, está sendo condenado sem provas”. Naquele momento, o segundo desembargador lia seu voto. Mais à frente, sentado debaixo de um pé de Ingá com dezenas de pessoas, fugindo do sol ardido, com cara de chuva, que se misturava ao mau cheiro da poluição do Rio Guaíba, estava o funcionário público Waldir de Paula, 53, mineiro de Belo Horizonte. “Quem vive no Brasil e tem consciência para reconhecer sabe o que Lula fez por este país”, disse. “Espero que a justiça seja feita”.

É o que também esperava a agricultora Marlene Alonso, 45, de Querência do Norte (PR). “No governo Lula, os pequenos agricultores viveram seu melhor momento”, declarou, acrescentando que os ricos do Brasil são muito fortes e não permitem que o pobre melhore de vida. “Então, acharam de condenar o homem [Lula], mas tudo que é mentira tem perna curta e, no final, a verdade vai prevalecer”, disse. Em meios aos lamentos, a votação no TRF4 era concluída. Lula fora condenado por três votos a zero a 12 anos e 1 mês de prisão. 

E os favoráveis à condenação de Lula? Vamos a eles. Dos 3.446 chamados amigos que tenho Facebook pelo menos uns 300 são contra o PT e os partidos de esquerda. Gente como o comerciário Daniel Cezar Wzorek, 38, de Canoinhas (SC). Adepto das políticas neoliberais, ele diz que a condenação do ex-presidente está certa conforme provas e depoimentos na Justiça. “Os petistas causaram um grande prejuízo à Petrobrás, favorecendo o PT e familiares do Lula”, afirma.

O advogado e contador Juarez Firmino de Oliveira, 53, de Maringá, acrescenta que Lula até fez um bom governo, mas se sujeitou às armadilhas do poder, fazendo parcerias ilícitas com outros setores para beneficiar estes e a si mesmo. “Ninguém está acima da lei, por ter sido seu eleitor, quero que ele seja responsabilizado pelos seus atos, o que ele fez foi uma traição ao povo que o elegeu”, analisa. “Chegou a hora de prestar contas dos desmandos feitos pelo PT”, emenda o operador de máquinas Joaquim Brasileiro, 55, de Sarandi.

Assim narramos a batalha de Porto Alegre. Que continua Brasil afora. Um país dividido. Novos rounds virão. Estaremos atentos como as garças, que à procura de comida, vasculham com a ponta do bico as margens do Rio Guaíba.

*Airton Donizete é jornalista e mestre em Comunicação.

 

* Matéria publicada na 241ª edição do Jornal Agora

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